domingo, 23 de julho de 2017

Fernanda Takai - O ritmo da chuva

O pai



Quando começo a escrever deixo de ser dono de mim mesmo. Fico à mercê de ideias que nunca pensei. Elas aparecem sem que eu as tenha chamado e me dizem: “Escreva!“ Não tenho outra alternativa. Obedeço. Cummings, referindo-se a um livro seu, ao invés de dizer “quando eu escrevi esse livro“, disse “quando esse livro se escreveu.“ Não foi ele… O livro já estava escrito antes, em algum lugar. Ele só fez obedecer as ordens que o livro lhe deu. Nikos Kazantzakis, autor de Zorba, o Grego, confessou que as letras do alfabeto o aterrorizavam. E isso porque, uma vez soltas, elas se recusavam a obedecer as suas ordens. “As letras são demônios astutos e desavergonhados — e perigosos! Você abre o tinteiro e as solta: elas correm — e você não mais conseguirá trazê-las de novo para seu controle! Elas ficam vivas, juntam-se, separam-se, ignoram suas ordens, arranjam-se a seu bel-prazer no papel — pretas, com rabos e chifres. Você grita e implora: tudo em vão. Elas fazem o que querem…“

Era meu costume tentar colocar ordem na casa: planejar, determinar de forma lógica e metódica os temas sobre que eu iria escrever. Foi assim que resolvi escrever um livro em que colocaria em ordem e diria tudo o que eu havia pensado sobre a educação. O título seria: A erótica da educação e a educação da erótica. Por cinco anos lutei. As idéias não me faltavam. Mas as palavras se recusaram a me obedecer. O dito livro não queria ser escrito. Wittgenstein passou por experiência semelhante. Por muitos anos ajuntou ideias. Aí, tentou ordená-las sob a forma de um texto filosófico. Eis o que aconteceu, em suas próprias palavras: “Depois de várias tentativas mal sucedidas de fundir meus resultados numa peça única, percebi que eu nunca haveria de ser bem sucedido. O melhor que eu poderia escrever seria nada mais que anotações filosóficas; os meus pensamentos ficavam logo paralisados se eu tentava forçá-los numa única direção contra a sua inclinação natural.“ 

Pois eu não tinha intenção alguma de escrever sobre o dia dos pais. Mas, de repente, passando os olhos num livro que uma amiga me enviou, encontrei a seguinte afirmação: “Tomar uma decisão de ter um filho é algo que irá mudar sua vida inteira de forma inexorável. Dali para frente, para sempre, o seu coração caminhará por caminhos fora do seu corpo.“

Aí as ideias puseram a se movimentar por conta própria. Pensei na minha condição de pai. É verdade: pai é alguém que, por causa de um filho, tem sua vida inteira mudada de forma inexorável. Isso não é verdadeiro do pai biológico. É fácil demais ser pai biológico. Pai biológico não precisa ter alma. Um pai biológico se faz num momento. Mas há um pai que é um ser da eternidade: aquele cujo coração caminha por caminhos fora do seu corpo. Pulsa, secretamente, no corpo do seu filho (muito embora o filho não saiba disto).

Lembrei-me dos meus sentimentos antigos de pai, diante dos meus filhos adormecidos. Veio-me à mente a imagem de um “ninho“. Bachelard, o pensador mais sensível que conheço, amava os ninhos e escreveu sobre eles. Imaginou que, “para o pássaro, o ninho é indiscutivelmente uma cálida e doce morada. É uma casa de vida: continua a envolver o pássaro que sai do ovo. Para este, o ninho é uma penugem externa antes que a pele nua encontre sua penugem corporal.“ Era isso que eu queria ser. Eu queria ser ninho para os meus filhos pequenos. Queria que meu corpo fosse um ninho-penugem que os protegesse, um ninho que balança mansamente no galho de uma árvore ao ritmo de uma canção de ninar…

Que felicidade enche o coração de um pai quando o filho que ele tem no colo se abandona e adormece! Adormecida, a criança está dizendo: “tudo está bem; não é preciso ter medo“. Deitada adormecida nos braços-ninho do seu pai ela aprende que o universo é um ninho! Não importa que não seja! Não importa que os ninhos estejam todos destinados ao abandono e ao esquecimento! A alma não se alimenta de verdades. Ela se alimenta de fantasias. O ninho é uma fantasia eterna. Jung deveria tê-lo incluído entre os seus arquétipos! “O ninho leva-nos de volta à infância, a uma infância!“ (Bachelard). Aquela cena, a criança adormecida nos braços do pai, nos reconduz à cena de uma criancinha adormecida na estrebaria de Belém! Tudo é paz! Desejaríamos que ela, a cena, não terminasse nunca! Que fosse eterna! 

É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de uma criança. É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de um pai. O efêmero e o eterno abraçados num único momento! “Conter o infinito na palma da sua mão e a eternidade em uma hora“: o pai que tem o seu filho adormecido nos seus braços é um poeta! Essas palavras do poeta William Blake bem que poderiam ser suas. Um homem que guarda memórias de ninho na sua alma tem de ser um homem bom. Uma criança que guarda memórias de um ninho em sua alma tem de ser calma! 

Mas logo o pequeno pássaro começará a ensaiar seus vôos incertos. Agora não serão mais os braços do pai, arredondados num abraço, que irão definir o espaço do ninho. Os braços do pai terão de se abrir para que o ninho fique maior. E serão os olhos do pai, no espaço que seus braços já não podem conter, que irão marcar os limites do ninho. A criança se sente segura se, de longe, ela vê que os olhos do seu pai a protegem. Olhos também são colos. Olhos também são ninhos. “Não tenha medo. Estou aqui! Estou vendo você“: é isso o que eles dizem, os olhos do pai.

O que a criança deseja não é liberdade. O que ela deseja é excursionar, explorar o espaço desconhecido – desde que seja fácil voltar. Tela de Van Gogh. É um jardim. No lado direito do jardim, mãe e criança que acabam de chegar. Ao lado esquerdo o pai, jardineiro, agachado com os braços estendidos na direção do filho. É preciso que o pai esconda o seu tamanho, que ele esteja agachado para que seus olhos e os olhos do seu filho se contemplem no mesmo nível. A cena é como um acorde suspenso, que pede uma resolução. É certo que o filho largará a mão da mãe e virá correndo para o pai… E a fantasia pinta a cena final de felicidade que o pintor não pode pintar: o pai pegando o filho no colo, os dois rindo de felicidade…

O tempo passa. Os pássaros tímidos aprendem a voar sem medo. Já não necessitam do olhar tranquilizador do pai. É a adolescência. Ser pai de um adolescente nada tem a ver com ser pai de uma criança. Pobre do pai que continua a estender os braços para o filho adolescente, como na tela de Van Gogh! Seus braços ficarão vazios. Como se envergonharia um adolescente se seu pai fizesse isso, na presença dos seus companheiros! É o horror de que os pássaros companheiros de vôo o vejam como um pássaro que gosta de ninho! Adolescente não quer ninho. Adolescente quer asas. Os ninhos, agora, só servem como pontos de partida para vôos em todas as direções. Liberdade, voar, voar… A volta ao ninho é o momento que não se deseja. Porque a vida não está no ninho, está no vôo. Os ninhos se transformam em gaiolas. Se eles procuram os olhos dos pais não é para se certificar de que estão sendo vistos mas para se certificar de que não estão sendo vistos! Aos pais só resta contemplar, impotentes, o vôo dos filhos, sabendo que eles mesmos não podem ir. Nos espaços por onde seus filhos voam os ninhos são proibidos. Mas eles terão de voltar ao ninho, mesmo contra a vontade. E o pai se tranquiliza e pode finalmente dormir ao ouvir, de madrugada, o barulho da chave na porta: “Ele voltou…“

Mas chega o momento quando os filhos partem para não mais voltar. 

Através da minha janela vejo um ninho que rolinhas construíram nas folhas de uma palmeira. A pombinha está chocando seus ovos. Vejo sua cabecinha aparecendo fora do ninho. Mas numa outra folha da mesma palmeira há um outro ninho, abandonado. Esse é o destino dos ninhos, de todos os ninhos: o abandono.
Gibran Khalil Gibran escreveu, no seu livro O Profeta, um texto dedicado aos filhos. Não sei de cor suas precisas palavras. Mas vou tentar reconstrui-las. É aos pais que ele se dirige. “Vossos filhos não são vossos filhos. Vossos filhos são flechas. Vós sois o arco que dispara a flecha. Disparadas as flechas elas voam para longe do arco. E o arco fica só.“

Esse é o destino dos pais: a solidão. Não é solidão de abandono. E nem a solidão de ficar sozinho. É a solidão de ninho que não é mais ninho. E está certo. Os ninhos deixam de ser ninhos porque outros ninhos vão ser construídos. Os filhos partem para construir seus próprios ninhos e é a esses ninhos que eles deverão retornar.

Assim é na natureza. Assim é com os bichos. Deveria ser conosco também. Mas não é. Quem é pai tem o coração fora de lugar, coração que caminha, para sempre, por caminhos fora do seu próprio corpo. Caminha, clandestino, no corpo do filho. Dito pela Adélia: “Pior inferno é ver um filho sofrer sem poder ficar no lugar dele.“ Dito pelo Vinícius, escrevendo ao filho: “Eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua…“

Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora. 

Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.

Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira…

Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…

Rubem Alves 

Fui Eu

Em nome da angústia: uma meditação sobre a morte



O suicídio de Virginia Woolf em 28 de março de 1941 é um dado biográfico absolutamente especial. Ele faz pensar em aspectos da morte e do morrer. No gesto de cancelamento da vida pela qual optou a escritora, podemos ver a depressão e a melancolia, ou a fuga de um mundo em guerra em tempos fascistas, inevitavelmente deprimentes para quem se mantinha ética e politicamente sensível. Talvez ainda Virginia Woolf tenha praticado um último ato no sentido do direito à morte como direito de luta pela liberdade que é própria à vida pensada como categoria ética e política. Quem vai saber?

Quem se contenta em resolver o problema da morte com aquela frase do filósofo Epicuro “não conhecemos a morte porque, quando ela chega, já não estamos presentes” sabe que se trata de uma frase de efeito que pode servir, em última instância, para evitar uma reflexão capaz de produzir muita angústia. Em tempos fascistas como os nossos, tempos que se repetem historicamente, mais do que nunca, é preciso pensar sobre a morte e renovar nossa relação com a angústia. A angústia tem algo a nos ensinar, que não precisamos nos matar e que não devemos matar os outros.

Ora, vivemos em tempos fascistas, tempos em que há muitas práticas de morte, morte por descaso e assassinato, e nenhuma reflexão sobre ela. Pensar na morte pega mal na era da felicidade banal típica desses tempos em que toda angústia é evitada. O fascista não sente angústia. E isso porque a morte não é, para ele, uma alternativa. Ele não lembra que vai morrer. Ele não morre simbolicamente como acontece às pessoas em geral algumas vezes na vida. Ora, o fascista não morre porque não pode morrer. Não morre justamente porque, como o confirma sua rigidez, ele já está morto.

Vida como categoria política

Antes de ser uma categoria médica ou biológica, a vida é uma categoria política. Como categoria política, a vida implica a nossa potência para a relação simbólica com o outro que é sempre uma relação de reconhecimento. Aquele que não reconhece a alteridade está morto. Está politicamente morto. Ora, quem está politicamente morto, está morto.

O cadáver é a objetificação total. Nele não há mais chance de estabelecer relação com o outro. Há cadáveres vestidos de morto fingindo estar vivos. De paletó e gravata eles dão as regras do jogo – sempre político – dos outros que, juntos, permanecem vivos. O cadáver veste a fantasia do político profissional e sobe ao palco espetacular dos meios de comunicação. Ali ele lança seu vômito apodrecido contra a dança da vida que é a dionisíaca dança da diferença.

No cenário político brasileiro, há quem, sendo sensível como Virgínia Woolf, pense que seria melhor morrer de vez. Há quem se deprima e pense em se matar. A depressão também é uma categoria política.

Fascista, a propósito, é um termo genérico que traduz uma expressão mais específica: personalidade autoritária. Em alta em nossa cultura ela nasce da cópula entre a paranoia e a ignorância. O outro não passa, no seu regime, de “tudo o que não presta” e que deve ser eliminado.

A fantasia da morte pode ser uma real perda de tempo, mas a meditação sobre a morte já ensinou muitos filósofos a viver. O tabu no qual o suicídio se tornou nos impede de ver o doloroso ensinamento de Virginia Woolf morrendo em um mundo morto sem chance de reinventar a vida.

Hoje não basta evitar falar do suicídio ou evitar praticá-lo. Seria preciso reinventar a vida. Essa reinvenção é necessariamente política. A pergunta que podemos nos colocamos é se um fascista seria, no atual momento político, capaz de meditar sobre sua própria morte.

Márcia Tiburi

Fernanda Takai canta " Você já me esqueceu"

Os três maiores poetas e os três maiores prosadores do Brasil

Não há como excluir de um cânone mínimo Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, na prosa, e Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, na poesia
Como escrevo sobre livros, leitores de vários Estados estão sempre pedindo indicações de obras “literárias importantes”. Por isso, de vez em quando, publico algumas listas comentadas. Há solicitações difíceis de atender: “Quais os três maiores romancistas brasileiros?” e “Quais os três maiores poetas brasileiros?”

Evidentemente, não há só três grandes romancistas e três grandes poetas. Há poetas, por exemplo, que, mesmo não figurando entre os maiores, escreveram poemas belos e emblemáticos. Vinicius de Moraes é, certamente, um deles, assim como Gregório de Matos Guerra, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Sousândrade, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Mário Faustino, Oswald de Andrade, Afonso Felix de Sousa, Lêdo Ivo, Raul Bopp, Cecília Meirelles, Mario Quintana, Adélia Prado, Haroldo de Campos, José Paulo Paes, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Ruy Espinheira Filho, Heleno Godoy, Ronaldo Costa Fernandes (poeta e prosador), Nelson Ascher e Régis Bonvicino.

Mas ninguém, ao elaborar uma lista com os três maiores poetas, terá a ousadia de excluir Carlos Drummond de Andrade, o Sol da poesia patropi, João Cabral de Melo Neto, o T. S. Eliot verde amarelo, e Manuel Bandeira. Este menosprezava, de maneira irônica e, quiçá, falsa modéstia, sua poesia — que seria “menor”. Usando a “dica”, pode-se dizer que a grande poesia de um país é formada por vários poetas menores que também, eventualmente, escreveram poemas maiores. É possível sugerir, ainda, que são os menores que colocam as escadas para poetas como Drummond de Andrade e João Cabral se tornarem gigantes.

Cecília Meireles: uma das mais importantes vozes líricas da literatura em língua portuguesa

Mais verdadeiro é admitir que uma cultura diversa como a brasileira jamais produzirá tão-somente dois ou três poetas que podem ser qualificados de grandes. Há espaço, e vasto, para incorporar vários poetas, de matizes diferentes. Talvez seja possível, até, incluir compositores, como Noel Rosa, Cartola, Caetano Veloso e Chico Buarque, como poetas. Talvez seja impossível excluir poetas como Fagundes Varella, Cassimiro de Abreu, Castro Alves e Olavo Bilac de um cânone mínimo da poesia de alta qualidade.

Porém, atendendo os leitores, que cobram reduções, não há mesmo como não listar Drummond de Andrade, João Cabral e, quem sabe, Manuel Bandeira como os três principais poetas do país. Talvez seja possível incluir, ainda que a fórceps, Ferreira Gullar. Eles não fazem feio numa lista que inclua Walt Whitman, T. S. Eliot, Camões e Fernando Pessoa.

Prosadores

Escolher prosadores talvez pareça fácil, mas não é. Citar apenas três é uma missão quase impossível. Euclides da Cunha, o de “Os Sertões”, era um escritor-ensaísta da mais alta linhagem. Como excluir Mário de Andrade e Oswald de Andrade? A Semana de Arte Moderna, que tirou parte o pó de certa literatura e artes plásticas, teria existido sem a inteligência e a fúria de ambos? Talvez não. A importância de Mário de Andrade para a cultura brasileira tem sido mostrada em vários livros escritos por professores quase sempre da USP. Além de sua poesia e de sua prosa — redefinindo a Língua Portuguesa e seu uso —, orientou alguns dos escritores mais importantes do país. Era uma espécie de Ezra Pound dos trópicos. Autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto tem sido cada vez mais valorizado. É possível deixar de lado Hugo de Carvalho Ramos, de “Tropas e Boiadas”, e Bernardo Élis, de “Ermos e Gerais”, “O Tronco” e “Veranico de Janeiro”? Como ignorar Monteiro Lobato, com sua importância para a formação e leitores? Como não apreciar a prosa, às vezes singela e quase sempre bela, de José Lins do Rego? “Menino do Engenho” contém uma prosa deliciosa, por vezes melodramática, mas, diria Billy Wilder, ninguém é perfeito. Não citar Clarice Lispector é tanto uma injustiça quanto, dados seus leitores fervorosos — quase uma legião de Esparta —, uma heresia. José J. Veiga é um prosador, contista (da primeira linha) e romancista, a se considerar. João Antônio, João Ubaldo Ribeiro, Raduan Nassar (muito melhor na prosa do que na análise política), Alberto Mussa e, até, Rubem Fonseca merecem figurar num cânone, se não de primeira, de uma excelente segunda linha. Vale citar, sem concessões populistas, Lúcio Cardoso, tido como o Dostoiévski brasileiro, e Cornélio Pena. Vale arrolar tantos outros, quem sabe até o Paulo Leminski de “Catatau”, quase uma espécie de “Ulysses” brasileiro misturado a, digamos, Rabelais. Entre os mais jovens e vivos (Raduan Nassar vive, mas sua literatura parece concluída), vale mencionar Bernardo Carvalho, Francisco Dantas, Milton Hatoum, Ronaldo Correia de Brito, Antônio José de Moura, Edival Lourenço.

Clarice Lispector: considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século 20

Todos os citados acima têm obras de excelência — uns mais, outros menos. Mas todos legíveis. Nenhum passa vergonha. Mas a prosa brasileira fica menor, muito menor, se excluirmos Machado de Assis, Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa.

Machado de Assis escreveu dois livros excepcionais, que o tornam canônico em qualquer língua, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o mais importante, e “Dom Casmurro”, o, por assim dizer, mais adorável e gerador de polêmica. Com tais romances, o autor revigorou sua literatura e a literatura do país, inscrevendo-a no mundo, ao lado de Laurence Sterne, Tolstói, Proust e Joyce, como uma das melhores, como um par. Machado de Assis tornou-se um clássico, mas, diferentemente de outros clássicos, não parece datado, e sim moderno e eterno. Parece ter escrito, não para leitores de seu tempo, mas para leitores de todos os tempos. O autor e mofo não combinam.

Mais tarde, nasceu o Tchekhov brasileiro, nas Alagoas. Graciliano Ramos, comunista de carteirinha, tinha tudo para dar errado, pois surgiu como escritor no momento em que o realismo socialista determinava o que era a boa literatura, mas o que seus adeptos entendiam como qualidade era, no geral, falta de qualidade literária, ao menos. Pois o Velho Graça, que conhecia as teorias, escapou ileso à pressões do realismo socialista, construindo uma literatura autônoma. O social é forte na sua literatura, é certo, mas o que é forte mesmo é sua linguagem — sua contenção e precisão. “Vidas Secas”, para mencionar apenas este romance, pode figurar, sem fazer feio, em qualquer lista de clássicos mundiais. É uma obra-prima adulta e modelar, além de inimitável.

Tendo citado dois grandes autores, não há como excluir do cânone Guimarães Rosa, autor de contos extraordinários, reunidos em “Sagarana” e outros livros, e sobretudo do romance “Grande Sertão: Veredas”. O autor mineiro não queria ser o clone brasileiro do irlandês James Joyce, e certamente não o era. Mas é com “Grande Sertão” que a literatura brasileira moderniza-se e se aproxima tanto de Joyce quanto de William Faulkner. Com um romance que parecia regionalista, dotado de laivos regionalistas, Guimarães Rosa usou um instrumento, digamos um bisturi, para desregionalizá-la — a linguagem. Grandes autores, como Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, são importantes porque empurram a literatura adiante, mas também são barreiras difíceis para outros escritores. Ao menos, os autores patropis sabem que há uma grande literatura, e mesmo sem querer imitá-la, constatam que é precisam “avançar” — se há avanço em literatura — a partir dela.