sábado, 18 de novembro de 2017

Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata
......
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Carlos Drummond de Andrade

Versículos do dia

Os teus votos estão sobre mim, ó Deus; eu te renderei ações de graças; Salmos 56:12

No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor. 1 João 4:18
Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.

Fernando Pessoa

Iate, ilha em Angra e apartamento de Joesley em NY estão à venda

Joesley Batista decidiu botar à venda alguns de seus bens — é o feirão do Joesley.

Entre eles, o já célebre apartamento de Nova York, na rua 53, defronte ao MoMA.

Interessado? São 685 m² quadrados e cinco quartos. Está avaliado em R$ 45 milhões, mas como o dono está necessitado, deve dar para comprar com um desconto…

Também estão à venda o iate, batizado de “Why not”, de 30 metros de comprimento, e sua ilha em Angra, comprada em 2013 e inaugurada com um show de Bruno e Marrone.

Valem uns R$ 10 milhões e R$ 25 milhões, respectivamente.
 
 Lauro Jardim - O Globo


O miniconto

Que tamanho deve ter um conto?   Os critérios editoriais definem a extensão de um texto pelo número de palavras. (Como ponto de referência, este artigo tem exatamente 979 palavras).

O mercado literário norte-americano, mais industrializado e preciso do que o nosso, define quatro faixas de extensão:

Conto (“short story”), até 7.500 palavras
Noveleta (“novelette”), entre 7.500 e 17.500 palavras
Novela (“novella”), entre 17.500 e 40 mil palavras
Romance (“novel”), de 40 mil palavras em diante

Dica: não tentem achar uma equivalência entre os termos ingleses e os termos cognatos em português (novela, romance). Usamos palavras parecidas para falar de coisas diferentes.

Edgar Allan Poe definiu o conto, de maneira pragmática e intuitiva, como uma "narrativa curta, cuja leitura atenta requer de meia-hora a uma ou duas horas." 

Poe tinha em vista o que ele chamava de unidade de efeito.  O conto deveria ser curto para não ser interrompido.  Deveria ser uma experiência mental única, contínua, do começo até o fim, para que não se diluíssem as tensões, e o desfecho tivesse toda a carga emocional preparada pelo autor. 

Curiosamente, a duração que ele preconizava para o conto é aproximadamente a que tem um filme de longa-metragem no cinema comercial.  E qualquer espectador de cinema mais exigente sabe que a experiência de ver um filme na TV “quebra o efeito”, por causa dos intervalos comerciais.  Tanto um conto quanto um filme devem ser, idealmente, uma experiência mental ininterrupta.

Isto se torna mais fácil quando praticamos o que chamamos de “miniconto” (“short-short story”).  Para este não há um limite específico, mas em geral podemos considerar como minicontos aqueles de duas páginas ou menos.  Algumas experiências vão mais além.  Revistas literárias de língua inglesa promovem de vez em quando concursos para contos com apenas seis palavras.  O modelo para isto é um texto famoso atribuído a Ernest Hemingway, que diz: "For sale: baby shoes, never worn" (“Vende-se: sapatos de bebê, sem uso”).  Há toda uma história de tragédia familiar por trás deste minitexto. 

O miniconto procura sugerir, já que não pode descrever ou narrar muita coisa.  Em oficinas literárias ou de roteiro, vez por outra os alunos recebem esta tarefa: “Conte sua história em uma frase. Depois, em dez linhas. Depois, em trinta linhas; depois em 200 linhas”. 

Quem for capaz de manter a precisão e a coerência ao longo destas etapas provavelmente será capaz de escrever um roteiro de 120 páginas.  

A concisão é uma virtude em declínio nesta época do mundo eletrônico e seu espaço aparentemente sem limites.  Antigamente, escrevíamos pensando no número de toques por linha (eram 70) e no número de linhas por lauda (eram 30).  Compactar qualquer história em seis palavras nos traz de volta um pouco dessa antiga disciplina.

A revista Wired promoveu certa vez um concurso de contos fantásticos e de ficção científica em seis palavras.  Uma tarefa difícil, uma vez que é preciso sugerir, além de uma história, uma ambientação com a qual o leitor, a princípio, não tem familiaridade.  Mesmo assim, houve tentativas bem sucedidas.  Como esta, de Eileen Gunn: “Computador?  Trouxemos baterias?  Alô!  Computador?  Computador?…”  Não precisa mais nada para imaginarmos uma nave silenciosamente à deriva no espaço, cheia de astronautas congelados. 

Gregory Maguire propôs: “Nos arranha-céus calcinados, homens criaram asas”.  É um cenário pós-catástrofe, que lembra os quadrinhos de super-heróis.  Viagens no tempo são um caminho interessante para estas narrativas super-rápidas.  Harry Harrison propõe esta hipótese: “MÁQUINA CHEGA AO FUTURO.  Ninguém lá...”  Um recurso mais operacional, meio clichê dentro do gênero, mas eficaz nas curtas dimensões do miniconto, é a historieta de Alan Moore: “Tempo. Sem querer, inventei máquina do.”  E tem a humorística hipótese de David Brin: “Dinossauros retornam.  Querem petróleo de volta”.

O interessante nestas experiências é o fato de que o autor conta com a imaginação do leitor, sua capacidade de recorrer a um banco-de-dados comum para preencher as lacunas, as partes não explicadas (não dá para explicar muito em seis palavras). 

As seis palavras funcionam como um cartum, criando uma unidade de sentido que se percebe de um só relance, sem precisar ficar esmiuçando “comos” e “por quês”.  São como um título de livro ou uma manchete de jornal: exigem que a gente seja capaz de “já saber” e também de imaginar.

Outra publicação, a revista online Smith, lançou para seus leitores um desafio parecido: contar em seis palavras a própria vida.  As respostas foram muitas e variadas.  O quesito verossimilhança ficou um pouco fora de questão, pois os editores não poderiam checar se o que cada colaborador afirmava de si próprio era verdade ou não – mas isto é o que menos importa.  Algumas sínteses foram cronológicas e bem-humoradas, como a de Dick Hadfield: “Feto, filho, irmão, marido, pai, vegetal”.  Outras foram visualmente eficazes: “Cabeça entre livros, pés sobre flores” (Heather Thomson).  Outras foram pessimistas até a medula, como a auto-avaliação de Patsy Wheatcroft: “Época errada.  Classe errada.  Sexo errado”.   Outras otimistas, como a de Peter Elvish: “Companheira fiel, amor, risadas... e agora?” 

Tem uma que dá um calafrio incômodo: “Quatro casamentos, três filhos, depois câncer” (Gillian Johnson).   E outra com um sabor de volta-por-cima: “Atropelada duas vezes, felizmente ainda viva” (Trudi Evans).  Steve MacMullen impressiona pela sobriedade e ausência de ambição: “Desposei namorada de infância.  Filhos. Contente”.

Na verdade não se trata de esperar dos colaboradores uma pequena façanha literária, apenas um poder de síntese satisfatório.  Um tal de Patric se resume: “Nasci londrino, vivi fora, morri dentro” (no original: “Born London, lived elsewhere, died inside”).  Jane Kirk demonstra bom humor: “Príncipe no cavalo branco nunca apareceu”.  

O desabusado C. North afirma: “Nenhuma nota dez, mas virei milionário”.   O esperançoso Sunny Tailor pergunta: “Alguma chance de começar de novo?”  E John Ball confessa com resignação: “Trabalhei toda vida, ainda pago impostos”.    E Alexandra Lackey diz: “Nada de romance tipo Jane Austen”

Mas há um grande romance latente em cada meia-dúzia de palavras, desde que bem escolhidas.

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

(Uma versão diferente deste artigo foi publicada na revista Língua Portuguesa, da Editora Segmento, São Paulo, em julho de 2009)


Lidando com a morte

Quando menino eu conheci uma amiga de minha mãe, daquelas solteironas do Miramar, que se dizia muito nervosa porque ficara no caritó. No bairro ninguém permitia que ela fosse aos velórios e enterros porque ao invés de chorar danava-se a dar risadas quando se aproximava do defunto.

Essas reações à morte são incríveis.

Mesmo as reações à ameaça de morte já são perigosas. O cidadão acabara de receber um péssimo diagnostico do médico. Encontrou um amigo e, muito deprimido, esperando uma força, confessou: “- Mas meu amigo, não lhe conto. Sai agorinha do médico e ele me deu seis meses de vida. O que você acha? ”. O amigo arregalou os olhos, balançou com força o seu ombro e disse: “- Pois corra, aproveite que seis meses para quem está morrendo passam em menos de uma semana”.

Já outro foi diagnosticado com um câncer e recebeu a visita do irmão ainda no hospital. “- Mano velho, eu que nem câncer tenho já estou lascado, avalie você que não deve ter nem três meses de vida”.

Seu Durval era meio assim...abilolado, e foi consultar um médico muito bom mas rude, beirando o estupido. Ao ser diagnosticado com pneumonia, quis duvidar. “- Mas Doutor, será que é mesmo pneumonia? Olha que eu tinha um amigo que foi diagnosticado com pneumonia mas morreu de outra doença”. O médico já aborrecido pela dúvida posta em seu diagnóstico, rebateu: “- Pois aqui é garantido, seu Durval. O senhor vai morrer mesmo de pneumonia, viu? Mas era só o que faltava...”.

Isso de morrer vai aos extremos do absurdo. Nerivan é testemunha de um estranhíssimo diálogo entre dois pinguços que frequentam o bar “Lavagem do rato”, no distrito mecânico. Um deles disse ao outro que o amigo comum Antônio havia morrido na porta do bar. O outro perguntou se ao morrer Antônio estava chegando ou saindo do bar. Quando foi informado que Antônio morreu quando entrava no bar, desabafou: “- Que azar, hem?”.

A mistura de bebinhos e mortos nunca deu certo. Zenildo conta que na cidade dele um bêbado foi a um velório e ao saber que fora suicídio, perguntou alto e bom som qual o veneno usado.Constrangido e querendo acabar com aquela cena macabra, um parente disse baixinho que o suicida tomara o veneno folidol. O bêbado não se conteve: “- Mas que imbecil. Folidol até que é bom, mas não há nada que se compare ao bom e velho chumbinho”.

Marcos Pires
Do Blog do Tião

O destino da vida: A história por trás de Cajuína, de Caetano Veloso

Torquato, Caetano e Capinan
 
“Caetano havia chegado a Teresina para um show. Estava muito triste. Retornava pela primeira vez à cidade onde havia nascido um de seus principais parceiros na Tropicália e seu grande amigo, o poeta Torquato Neto, meu primo, que havia se suicidado em 1972”, escreveu o jornalista, poeta e escritor piauense Paulo José Cunha.

Foi a partir desse momento que começou a ser escrita a história das entrelinhas de Cajuína, música de Caetano Veloso gravada em 1979 para o disco Cinema Transcendental. Oito versos de um xote um tanto melancólico que se questiona sobre a efemeridade da vida, de belezas e mistérios.

A canção começou a ser composta por Caetano quando chegou a Teresina (PI) com a turnê Muito e recebeu no hotel a visita de Dr. Heli Nunes, o pai de Torquato. Aquela era a primeira vez que o encontrava após o trágico fim do amigo.

“Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental”, relembrou Caetano, que não havia chorado no momento em que recebeu a notícia da morte súbita de Torquato. Foi apenas ao se encontrar com Dr. Heli, anos depois do ocorrido, que sua “dureza amarga se desfez”, como traduziu o próprio Caetano.

Naquele momento de reencontro, Caetano derramou as lágrimas guardadas e foi consolado com grande ternura pelo pai de seu amigo. Dr. Heli o levou até sua casa e lá ficaram a sós (já que Dona Maria Salomé, mãe de Torquato, estava hospitalizada). Ele conta que não trocaram muitas palavras, mas contemplaram juntos as inúmeras fotografias de Torquato expostas pelas paredes da casa.
Dr. Heli, como se desejasse relembrar a beleza da vida, deu ao amigo de seu filho uma rosa-menina colhida diretamente do quintal; e também serviu cajuína, como se quisesse adocicar aquele instante. Caetano continuava a derramar lágrimas, mas não mais de tristeza ou amargura. “Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Heli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei”, simplificou Caetano.

E foi no dia seguinte, quando pegou a estrada, que Caetano escreveu Cajuína, expressando em palavras cantadas a complexidade e simplicidade de momentos que despertam sentimentos quase intraduzíveis.
  
O Anjo Torto

Em 1967, o Tropicalismo se firmava como movimento cultural e tinha como grande letrista Torquato Neto. Ele assinou importantes canções, como Geleia Real, Louvação, Marginalia 2, Mamãe Coragem e Deus vos Salve esta Casa Santa, fazendo parcerias com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo e Jards Macalé. No período pré-Tropicalista, também conheceu Chico Buarque de Holanda, de quem se tornou grande amigo.

Mas aqueles eram tempos difíceis para sonhadores. Fazer arte significava um ato de bravura e a censura tentava calar Torquato, que, além de letrista e poeta, também era jornalista, tendo assinado por muitos anos a coluna Música Popular, do jornal O Sol, e também a polêmica Geleia Real, publicada no Última Hora. Com a repressão, Torquato se afastou de tudo e todos e chegou a se internar voluntariamente por conta de sua instabilidade mental agravada.

Torquato Neto, conhecido como o Anjo Torto da Tropicália, cometeu suicídio no dia 10 de novembro de 1972, um dia após seu aniversário de 28 anos. Foi ainda na madrugada, após seus convidados terem deixado sua casa no Rio de Janeiro (RJ), que decidiu abrir as torneiras de gás de seu banheiro. Lá foi encontrado morto ao amanhecer, asfixiado.

Os jornais da época relataram que as últimas anotações encontradas em seu caderno de espiral traziam frases como Pra mim chega e O amor é imperdoável, esta última atribuída a Caetano Veloso. No livro Torquato Neto: uma poética de estilhaços, o escrito Paulo Andrade transcreveu a nota de suicídio assinada pelo poeta:
“FICO. Não consigo acompanhar a marcha do progresso de minha mulher ou sou uma grande múmia que só pensa em múmias mesmo vivas e lindas feito a minha mulher na sua louca disparada para o progresso. Tenho saudades como os cariocas do tempo em que eu me sentia e achava que era um guia de cegos. Depois começaram a ver, e, enquanto me contorcia de dores, o cacho de banana caía. De modo Q FICO sossegado por aqui mesmo enquanto dure. Ana é uma SANTA de véu e grinalda com um palhaço empacotado ao lado. Não acredito em amor de múmias, e é por isso que eu FICO e vou ficando por causa deste amor. Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar”.
Quanto a seu pai, Dr. Heli, faleceu em 2010, aos 92 anos de idade. Seu sepultamento foi realizado por Thiago Silva de Araújo Nunes, único filho do poeta piauiense com Ana Maria, esposa de Torquato citada na carta de despedida.

Confira aqui a íntegra do relato de Caetano sobre a composição e abaixo o trecho de sua participação no Programa Livre, onde também fala sobre a história por trás da música. E, por fim, a interpretação de Cajuína, em 1982 e 2012:



Por
Fernanda Mendonça

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sexta-feira, 17 de novembro de 2017


Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu. 
 



Para levar o homem a um estado de bem-venturança, de modo algum seria suficiente que se o transportasse para um mundo melhor; ainda seria necessária a produção de uma mudança fundamental nele mesmo, que o fizesse não mais ser o que é, mas, ao contrário, o fizesse se tornar o que não é.Porém, para isso ele tem de primeiro deixar de ser o que é.

Arthur Schopenhauer

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Vou fazer 90 anos, nunca fiz cirurgia plástica. Tinha uma colega que dizia que minha autoestima era grande, porque eu sempre confiei na minha cara do jeito que estava. Não tenho problema algum com minhas rugas. Meu rosto reflete a minha vida, a minha alma, o que amei, o que sofri... Eu me gosto assim. 

Atriz - Laura Cardoso

Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever por exemplo:
A noite está fria e tiritam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quis e por vezes ela também me quis
Em noites como esta, apertei-a em meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me quis e as vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos?
 Posso escrever os versos mais lindos esta noite
Pensar que não a tenho
Sentir que já a perdi
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela
E cai o verso na alma como orvalho no trigo
Que importa se não pode o meu amor guardá-la ?
A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo
A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Para tê-la mais perto meu olhar a procura
Meu coração procura-a, ela não está comigo
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é certo
Porém quanto a queria!
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido
De outro. será de outro
Como antes de meus beijos
 Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos
Já não a quero, é certo,
Porém talvez a queira
Ah ! é tão curto o amor, tão demorado o olvido
Porque em noites como esta
Eu a apertei em meus braços,
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
E estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

Pablo Neruda
Acredite no poder
da palavra “Desistir"
tire o D coloque o R
que você vai Resistir.
Uma pequena mudança

as vezes trás esperança
e faz a gente seguir.


Bráulio Bessa

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Há quem tenha medo que o medo acabe


O autor e a palavra

O saite Literary Hub fez um teste com seus leitores, via Twitter. A idéia lançada era: Existe alguma palavra do idioma inglês que, assim que a vemos, lembra de imediato um autor?

O autor da matéria, Kaveh Akbar, argumenta que não pode ouvir a palavra “purple” (=roxo) sem lembrar de Prince, por causa da canção “Purple Rain”.

A questão lançada tem uma certa sutileza, porque ele não está perguntando palavras inventadas por autores, o que seria muito mais fácil. “Jabberwocky” é uma palavra inventada por Lewis Carroll, “cyberspace” foi inventada por William Gibson, “riverrun” por James Joyce e assim por diante.

O que ele pergunta é o caso de palavras que já eram termos comuns da língia inglesa, mas que foram usadas de forma tão marcante por um autor que acabaram se associando a ele.

Os leitores trouxeram twitters com muitas sugestões, a maioria de autores que desconheço, mas tem alguns que não há como negar.

Quem pode negar, por exemplo, que “Howl” ficou para sempre associada ao famoso poema de Allen Ginsberg? O substantivo uivo e o verbo uivar continuam aparecendo normalmente em um milhão de textos, mas é como se grudado a eles viessem sempre, como um balão de gás amarrado no parachoque de um carro, a barba e os óculos do poeta beat do Greenwich Village.

Ele dá exemplos recentes: “handmaid” (=aia, criada) ficou associado a Margaret Atwood depois do romance/série de TV The Handmaid’s Tale.

Alguém lembrou que mesmo uma coisa de uso prático como a escala Fahrenheit passou a lembrar Ray Bradbury por causa do romance Fahrenheit 451 – a tal ponto que Michael Moore intitulou um documentário seu Fahrenheit 11/9, em alusão ao mundo de Bradbury, não ao da medição térmica.

O saite lembra que a palavra “tyger” ficou associada a William Blake pelo seu famoso poema “Tyger, tyger, burning bright / in the forest of the night...” Com o detalhe de que isso só ocorre na forma arcaica da grafia, com “Y”.

Também na lista aparecem “flâneur” (a cara de Charles Baudelaire), “inferno” (a cara de Dante – note-se que o uso corriqueiro em inglês é de “hell”, sendo “inferno” uma palavra de cunho latino usada em casos excepcionais), “solitude” (a cara de Garcia Márquez, e o tradutor Gregory Rabassa já explicou por que preferiu este termo a “loneliness”).

De minha parte, nunca deixou de me espantar o título do famoso conto de Edgar Allan Poe sobre a carta furtada: “The Purloined Letter”. Em décadas de leituras em inglês não me lembro de ter visto esse verbo, “to purloin”, usado por quem quer que fosse. É como se Poe o tivesse inventado.

E em português?

A primeira palavra-pregada-a-um-autor que me ocorre é a inevitável “nonada”, que já era corrente no idioma mas Guimarães Rosa tornou inequivocamente sua.

Igualmente corrente era a palavra “armorial”, mas como substantivo (“livro ou códice onde se reúnem reproduções de brasões e armas heráldicas”). Neste sentido, existe até em inglês (vejo de vez em quando em livros por aí). Ariano Suassuna deu-lhe cunho de adjetivo e tornou-se indissociável dele.

A palavra “banguê” pode ser de uso corrente na zona canavieira, mas no caso de leitores de qualquer outra parte a sensação que temos é de que foi José Lins do Rego que a inventou no título de um livro famoso. O mesmo argumento pode valer para “bagaceira” e José Américo de Almeida.

São palavras meio raras, e essa raridade torna mais fácil a sua anexação a um uso famoso. Porque palavras mais comuns, como “pedra” poderiam ser associadas por leitores diferentes a Drummond, a João Cabral, ao próprio Ariano... Palavras a que diferentes autores deram usos marcantes em cada caso, e que acabaram não se fixando em nenhum deles.

Vale para nomes próprios, também, nomes de lugares que já existiam antes de um autor se apossar para sempre do seu topônimo. Eu, por exemplo, sempre pensei que “Pasárgada” fosse uma invenção de Manuel Bandeira, mesmo tendo visto repetidas declarações dele de que colheu o nome dos livros de História.


Fico imaginando se para outros leitores as palavras “veranico”, “amanuense”, “bugre”, “catavento”, “escarro”, “senzala”, têm para todos os leitores as mesmas referências literárias imediatas que têm para mim. 

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo