sábado, 20 de janeiro de 2018


Revolução da alma

Ninguém é dono da sua felicidade, por isso não entregue a sua alegria, a sua paz, a sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém.
Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja.

A razão de ser da sua vida é você mesmo.

A sua paz interior deve ser a sua meta de vida; quando sentir um vazio na alma, quando acreditar que ainda falta algo, mesmo tendo tudo, remeta o seu pensamento para os seus desejos mais íntimos e busque a divindade que existe dentro de si.

Pare de procurar a sua felicidade cada dia mais longe.

Não tenha objetivos longe demais das suas mãos, abrace aqueles que estão ao seu alcance hoje.

Se está desesperado devido a problemas financeiros, amorosos ou de relacionamentos familiares, busque no seu interior a resposta para se acalmar, você é reflexo do que pensa diariamente.

Pare de pensar mal de si mesmo, e seja o seu próprio melhor amigo, sempre.
Sorrir significa aprovar, aceitar, felicitar.
Então abra um sorriso de aprovação para o mundo, que tem o melhor para lhe oferecer.

Com um sorriso, as pessoas terão melhor impressão sua, e você estará afirmando para si mesmo, que está "pronto"para ser feliz.
Trabalhe, trabalhe muito a seu favor.
Pare de esperar que a felicidade chegue sem trabalho.
Pare de exigir das pessoas aquilo que nem você conquistou ainda.

Agradeça tudo aquilo que está na sua vida, neste momento, incluindo nessa gratidão, a dor.

A nossa compreensão do universo ainda é muito pequena, para julgarmos o que quer que seja na nossa vida.  

Paulo Roberto Gaefke

Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata
...
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Carlos Drummond de Andrade
Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.
Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.

Mário Quintana

Escravos donos de escravos intrigam historiadores brasileiros

"Negras livres vivendo der suas atividades", Jean Baptiste Debret

Os casos de ex-escravos donos de escravos são relativamente comuns – há exemplos deles por todo a América, principalmente em cidades onde o crescimento da economia abria oportunidades para pequenos empreendedores. Mais raras e perturbadoras são as histórias de escravos com escravos – pessoas que, mesmo antes de conquistar a liberdade, compraram gente para si próprias.

Imagine o leitor o espanto que deve tomar os historiadores quando, ao examinar documentos antigos, encontram registros como estes:

Em 17 de maio do ano de 1788, se enterrou nesta sepultura um escravo chamado João, do nosso escravo Ignácio dos Santos.

Em 29 de março de [17]89 se enterrou nesta sepultura uma escrava do nosso escravo Damásio, de Camorim, chamada Maria.

Ignácio dos Santos e Damásio eram escravos da Ordem Beneditina do Rio de Janeiro, que mantinha registros detalhados de nascimentos, batismos, casamentos e mortes dos trabalhadores de suas fazendas, igrejas e mosteiros. Não eram donos de si próprios, mas possuíam outras pessoas.

O historiador João José Reis encontrou diversos casos de escravos-senhores em documentos baianos do século 19. Já Carlos Eugênio Líbano Soares, vasculhando registros de batismo da Bahia do século 18, achou “um número espantoso de escravos que possuíam escravos”, como afirmou num estudo sobre o tema. Eis um exemplo de registro de batismo que dá essa informação:

Joaquim, Nagô, com 22 anos de idade aparente, escravo de Benedito, Hauçá, solteiro, e este também escravo de dona Ponciana Isabel de Freitas, branca, viúva, [moradora] ao Cais da Loiça. Foi Padrinho Domingos Lopes de Oliveira, benguela, forro, solteiro, da Freguesia de Santo Antonio Além do Carmo.

Como escravos se tornavam senhores? E por que não compravam a própria liberdade antes de adquirir esse tipo de propriedade? Alguns se tornavam senhores por herança. Se uma negra liberta e proprietária morresse, seus bens seriam herdados pelos filhos, e podia acontecer de esses filhos ainda viverem em cativeiro. Como a escravidão era um costume socialmente aceito na época, os escravos não viam contradição em possuírem escravos.

Mais comum era o caso dos negros, principalmente das grandes cidades, que conquistaram a confiança de seus senhores e desfrutavam de tanta autonomia para tocar os negócios que não pensavam em se alforriar. Possuir escravos provavelmente lhes conferia mais benefícios e um status mais alto que a liberdade.

Um exemplo é o africano Manoel Joaquim Ricardo, tema de um artigo do historiador João José Reis. Em 1842, quando foi testemunha em um processo judicial, Manoel que tinha de seu senhor “a autorização para negociar por si e adquirir quaisquer bens, mas também uma ampla licença de morar fora da casa daquele senhor”. Comerciante de alimentos e pessoas em Salvador, Ricardo comprou três mulheres – entre elas uma menina de 12 anos – quando ainda era escravo. Morreu livre em 1865, dono de quatro casas e 28 negros, patrimônio que o colocava entre os 10% dos cidadãos mais ricos da Bahia.

Costumamos retratar os personagens da história como vilões e mocinhos. Ignácio dos Santos, Damásio, Benedito e Manoel e outros tantos escravos-senhores embaralham essa visão simplista. Interpretaram ao mesmo tempo o papel de opressores e oprimidos, vítimas e algozes da escravidão brasileira.
 
 Leandro Narloch - Gazeta do Povo
 
* O texto acima é um trecho inédito do meu novo livro, “Escravos”, primeiro volume da coleção “Achados & Perdidos da História”. Para quem se interessou, o livro chega às livrarias nas próximas semanas.

Entrevista de emprego

Após o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, o vice Café Filho assumiu o cargo e logo nos primeiros dias chamou o amigo Rubem Braga:

- Preciso de você!

- Café – respondeu o genial cronista – você virou presidente, está bem empregado, a vida arrumada. Quem precisa sou eu. Estou duro, desempregado, precisando trabalhar.

Ganhou o emprego de adido cultural à embaixada do Brasil em Santiago.
 
Diário do Poder 
Duas coisas povoam a mente com uma admiração e respeito sempre novos e crescentes...o céu estrelado por cima e a lei moral dentro de nós.


Perdendo as estribeiras


Gleisi convoca ‘gente’ a morrer por Lula, Bolsonaro come ‘gente’ à nossa custa
Em que mundo estão a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e o deputado e presidenciável Jair Bolsonaro, quase PSL, que representam os dois polos das eleições de 2018 e estão perdendo as estribeiras?
Estridente integrante da tropa de choque do ex-presidente Lula, o líder das pesquisas, Gleisi disse ao site Poder360 que, “para prender Lula, vai ter de matar gente”.
E, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Bolsonaro, por ora principal concorrente de Lula, admitiu por que recebe o auxílio-moradia da Câmara, de R$ 4.253,00, se tem imóvel em Brasília: “Pra comer gente, tá?”.
Depois de defender, até internacionalmente, a ditadura agora sanguinária de Nicolás Maduro na Venezuela, Gleisi joga gasolina na fogueira e convoca petistas e agregados para incendiar o País no julgamento de Lula, dia 24, pelo TRF-4. Péssimo para o País e não ajuda Lula em nada.
Quem é a “gente matada” de Gleisi Hoffmann? E quem é a “gente comida” de Jair Bolsonaro? A gente que estuda, trabalha, rala na fila do ônibus e amarga o desemprego, ou produz, vende, sofre com a economia e se escandaliza com a política? Será que é essa gente que vive ou morre por Lula? E será que é essa gente que Bolsonaro “come” à custa de dinheiro público?
A declaração de Gleisi é tão irresponsável como foi sua defesa do regime Maduro, que leva os cidadãos e cidadãs venezuelanos ao desespero, ao desamparo, ao desabastecimento e à desesperança. Em vez de se aliar com a gente que sofre, ela se alinhou com a gente que impõe o sofrimento. E por mera questão ideológica. E, no caso de Lula, ela tenta jogar o mundo petista, nada mais, nada menos, contra a Justiça brasileira. E deixa a dúvida: e se o TRF-4 absolver Lula? Quem é a favor da prisão também pode matar ou morrer?
Já Bolsonaro vai se revelando, além de um político reacionário, com ideias deseducativas, também um poço de contradições. A principal é se dizer antipolítico. Como assim? Não bastasse estar no sétimo mandato de deputado federal, elegeu a ex-mulher duas vezes vereadora no Rio e meteu três filhos na política: Eduardo é deputado federal, Flávio, estadual, e Carlos, vereador.
Foi como políticos que os quatro Bolsonaro amealharam ao menos R$ 15 milhões em imóveis. E é também como político que o patriarca pode usufruir de auxílio-moradia para “comer gente”. Isso é que é rejeição à política?!
As declarações estapafúrdias da senadora e do deputado são chocantes, mas reforçam o quanto o Brasil está mudando e o quanto os próprios políticos estão esperneando, se surpreendendo e correndo atrás do prejuízo. Nisso, perdem o senso, extrapolam e falam o que não podem, nem devem.
O próprio fato de o ex-presidente mais popular da redemocratização estar sendo denunciado, julgado e até condenado em primeira instância já é uma mudança e tanto. Mas há muito mais: o que dizer de um presidente no exercício do mandato que sofreu duas denúncias da PGR no mesmo ano e tem agora de responder a questionário de 50 perguntas “desrespeitosas e ofensivas”, segundo ele, da Polícia Federal?
E o ex-poderoso governador do Rio que foi preso, condenado a dezenas de anos e ontem transferido de penitenciária para não desfrutar de regalias? E as intervenções na Petrobrás e, nesta semana, na CEF? E a prisão de Paulo Maluf? Símbolo da corrupção por mais de 30 anos, ele virou o maior troféu do oposto, do combate à corrupção.
A declaração de Gleisi é um esperneio e a de Bolsonaro é um alerta para o risco de enganação e retrocesso. Gente que não mata e não morre contra a Justiça e que não “come” nem é “comida” com dinheiro público ouve essas coisas, reflete e confirma: é preciso avançar e aprofundar a fantástica mudança do Brasil.
Eliane Cantanhêde
Estado de S.Paulo

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018


Oito acidentes de rotina

1
Suvrinda Amantchali, 48, agente imobiliária, moradora de Nova Delhi, estava sozinha em casa à noitinha quando houve um black-out.  Resolveu fazer um café, foi à cozinha no escuro com uma vela acesa em cima de um pires, ligou o gás, constatou que como se não bastasse a falta de luz o gás também tinha acabado, foi no quartinho dos fundos, trouxe o bujão de reserva, ligou-o com impaciência, sem perceber que tinha deixado o bico do fogão aberto, e a vela a meio metro de distância em cima da pia.

2
Paulo Alcides Monteiro, 27 anos, carioca, vinha andando pela rua quando percebeu que seu tênis direito estava com o cadarço solto.  Deu mais alguns passos e parou junto a um portão de chapas de metal, um tanto elevado em relação à calçada, e pousou ali o pé para amarrar o laço. O portão tinha uma brecha de uns quatro dedos em relação ao chão de cimento, e foi por ali que o doberman trancado abocanhou o pé dele.

3
Helmut Weissberg, 48 anos, morador de Munique, vinha voltando para casa de madrugada, numa estrada rural, ao volante de sua picape, após uma noitada numa cervejaria, quando ao entrar no povoado onde morava derrapou numa curva, desceu aos trambolhões pelo barranco, destruiu algums cercas e se chocou com o muro de uma casa, e como estava sem cinto de segurança foi arremessado no ar através de uma janela aberta onde aterrissou no quarto onde sua esposa, inadvertidamente, entregava-se a folguedos inconfessáveis com Mathias Brommberg, 51 anos, carteiro municipal.

4
Ananda Molinaro, 44 anos, manicure, residente em Palermo (Sicília), estava sozinha em casa à noite quando viu um escorpião sair de entre as pedras da parede e cruzar a sala. Lembrou-se da lenda a respeito de cercar o escorpião com um círculo de fogo para que ele se suicidasse, muniu-se de álcool e fósforos, e acabou ateando fogo ao animal, que disparou pela casa transferindo as chamas para o tapete, as cortinas, a toalha da mesa, o carrinho do bebê.

5
Barney Duclane, 48 anos, operário da construção civil em Baltimore, estava trabalhando no sexto andar de um edifício em construção quando, ao desferir uma martelada mais forte na tábua que estava pregando, viu a cabeça do martelo escapar do cabo e descrever um arco veloz cortando o espaço e terminando do outro lado da rua à altura da calçada, onde se chocou diretamente com a têmpora direita de James R. Martindale, 34 anos, corretor de seguros, cujo último pensamento foi a respeito da casa de praia que pretendia comprar dali a dois anos, quando recebesse uma promoção.

6
Damião Barbosa da Cunha, 31 anos, ambulante na praia de Ponta Negra (Natal), subiu num coqueiro para tirar um coco e vender a uma turista mas o coco escapou-lhe das mãos e caiu lá de cima sobre o fogareiro de uma barraca vizinha, ateando fogo ao plástico que a recobria e causando um corre-corre que foi causa de uma colisão envolvendo seis veículos, entre eles o Porsche de um deputado que quebrou o nariz e processou Damião por danos físicos e psicológicos.

7
Luzia Maria da Silva Oliveira, 23 anos, dona de casa, acordou sozinha em casa com o bebê chorando, deu-lhe uma aguinha, ligou o fogo e botou a mamadeira para escaldar, arrastou o tamborete para perto, agradeceu em silêncio pelo bebê ter se calado, pensou na vida, pensou no futuro, pensou quando o bebê já fosse grandinho e ela pudesse passear no parque, comprar sorvete, correr na grama atrás de um cachorro, fazer festinha temática de aniversário, as brincadeiras, as prendas, e de repente um cheiro acre no nariz e ela despertou para a realidade do dia claro, o bebê chorando e a fumaça preta se elevando da panela por entre o odor pungente de plástico derretido.

8
Lourival Carmelo da Silveira, 51 anos, funcionário público, reuniu em casa, num domingo de sol, uma horda vociferante de torcedores uniformizados, para acompanhar pela TV um clássico qualquer, entre caipirinhas e tiragostos variados, e para tirar onda abriu com cuidado a tampa de uma garrafa de cachaça e depois a colocou de volta, deixando-a na mesa da sala, até que alguém ergueu a garrafa e pediu o abridor adrede surrupiado, e Lourival bazofiou, “isso eu abro é com o dente!”, ergueu a garrafa, encaixou com firmeza o dente na tampa já preparada, e com um gesto firme do pulso deu-lhe um sacolejo forte que fez voar pelos ares um canino sanguinolento.
 
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo 

Humor

Num avião em Portugal, um padre (Português) sentou-se ao lado de um homem visivelmente embriagado que, com dificuldade, lia o jornal.
De repente, com a voz "empastada", o bêbado perguntou ao padre:
- O senhor sabe o que é artrite?
O pároco logo pensou em aproveitar a oportunidade para passar um sermão no bêbado e respondeu:
- É uma doença provocada pela vida pecaminosa e sem regras: excesso, de consumo de álcool, drogas, maconha, crack, e, certamente mulheres perdidas, prostitutas, promiscuidade, sexo, farras e outras coisas que nem ouso dizer.
O bêbado arregalou os olhos, calou-se e continuou lendo o jornal.
Pouco depois o padre, achando que tinha sido muito duro com o bêbado, tentou amenizar:
- Há quanto tempo o senhor está com artrite?
- Eu? Eu não tenho artrite! Diz aqui no jornal que quem tem é o Papa.

Carta a um jovem poeta

Paris, 17 de fevereiro de 1903
 
Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

Rainer Maria Rilke
 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018


Pau de galinheiro

Mas será o Benedito? Toda vez que alguém é indicado para um cargo público de relevância aparece um escândalo logo em seguida. Será que o serviço secreto brasileiro só descobre essas coisas depois que a imprensa publica? Ou será que esses jornalistas investigativos trabalham pro serviço secreto?

O tanto de coisas escondidas que a imprensa descobre é demais. Se bem que isso de investigar e descobrir é o de menos. Minha mãe já dizia que nenhum comerciante aguenta mais de trinta dias de fiscalização. Dou por menos; qual o marido, mesmo aqueles ferrolhos de igreja, que aguenta a esposa cutucando seu celular uma manhã inteira? Pode até nem descobrir amante, mas com certeza vai chegar no aplicativo do banco e descobrir o saldo da conta e as aplicações financeiras que ele tem.

Uma maneira antiga de derrubar poderosos eram os dossiês. Antônio Carlos Magalhães, que Deus o tenha (se é que ele está por lá) inventou um tal dossiê contra seu inimigo político Jutahy Magalhães, que era Ministro à época. ACM fez um escarcéu sobre o assunto e, todo pimpão, foi ao Presidente da República que sabidamente convocara a imprensa para receber os documentos. ACM esperava uma audiência particular para impor sua maldade. Revelado o dossiê, provou-se que eram apenas recortes de jornal. Daquela vez não colou.

Aqui mesmo na Paraíba houve recentemente a conjectura de nomeação de um deputado federal para um Ministério. Em 24 horas até Ciro Gomes abalou-se do Ceará para flechar o pobre coitado.

Nem sempre as denúncias contra os poderosos precisam ser verdadeiras, basta que impactem o imaginário popular.

Na Inglaterra ficou celebre a acusação de que um primeiro ministro havia feito sexo com um porco. Aqui no Brasil tivemos muitos casos assim.

Com as eleições se aproximando a mídia e principalmente as redes sociais vão ser ocupadas por denúncias contra políticos. De minha parte, mesmo não votando em ninguém, adoro essa época. É que os adversários fazem acusações mutuas de fatos que o povo desconhecia. Um diz que o outro é ladrão e o outro devolve a acusação. Com certeza os dois terão razão, porque ambos roubaram.

Seremos governados por ladrões, mas pelo menos fomos avisados antes por eles mesmos, né?

Marcos Pires  
Do Blog do Tião

O baú

Como estranhas lembranças de outras vidas,
Que outros viveram, num estranho mundo,
Quantas coisas perdidas e esquecidas
No teu baú de espantos... Bem no fundo,
Uma boneca toda estraçalhada!
(isto não são brinquedos de menino...
alguma coisa deve estar errada)
mas o teu coração em desatino
te traz de súbito uma ideia louca:
é ela, sim! Só pode ser aquela,
a jamais esquecida Bem-Amada.
E em vão tentas lembrar o nome dela...
E em vão ela te fita... e a sua boca
Tenta sorrir-te mas está quebrada! 



Mário Quintana

Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco. Necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá.

Charles Chaplin

Frase

Assim que se olharam, amaram-se; assim que se amaram, suspiraram; assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo; assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio.

William Shakespeare