sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Criando raízes


Quando eu era pequeno, tinha um vizinho idoso chamado Dr. Gibbs Ele não se parecia com qualquer outro médico que eu tivesse já conhecido. Todas as vezes que o via, estava metido em macacões de brim e usava um chapéu de palha cuja aba era de plástico verde. Sorria muito – um sorriso que combinava bom com o chapéu: velho, enrugado e muito usado. Nunca brigava conosco por brincarmos em seu quintal. Lembro-me dele como uma pessoa muito mais amável do que justificavam as circunstâncias. Quando não estava salvando vidas, o Dr. Gibbs plantava árvores. Sua casa ficava no meio de um terreno de 40 mil metros quadrados de terra, e o grande objetivo de sua vida era transformá-lo numa floresta.

O bom médico tinha teorias interessantes sobre o cultivo de plantas. Ele era discípulo da seguinte escola de horticultura: “Sem sofrimento, não há crescimento”. Nunca regava as árvores novas, o que não combinava com a sabedoria convencional. Certa vez, eu lhe perguntei por que agia assim. Ele disse que, se regasse as plantas, as deixaria mimadas e que, dessa maneira, cada geração seguinte seria mais e mais fraca. Para o Dr. Gibbs, era preciso dificultar as coisas para eliminar as mais fracas desde o início.

Ele dizia que regar uma árvore gerava raízes superficiais. Já as árvores que não eram regadas desenvolviam raízes profundas que buscavam a umidade da terra. Imaginei que, com isso, ele quisesse dizer que raízes profundas deveriam ser valorizadas.

O médico, portanto, jamais regava suas árvores. Plantava um carvalho e, em vez de regá-lo todas as manhãs, surrava-o com um jornal enrolado. Shlept! Poft! Pou! Perguntei-lhe por que fazia aquilo e ele respondeu que era para chamar a atenção da árvore.

O Dr. Gibbs morreu uns dois anos depois que eu deixei a casa de meus pais. De vez em quando, passo por sua casa e olho as árvores que o vi plantar há vinte anos. Hoje são fortes como granito. Grandes e robustas. Essas árvores acordam toda manhã, batem no peito e bebem café amargo.

Plantei duas árvores há alguns anos. Levei água para elas durante o verão inteiro. Borrifei-as. Orei junto a elas. Fiz de tudo. Dois anos de tantos mimos resultaram em árvores que esperam ser servidas como rainhas. Quando um vento frio sopra, eles tremem e estalam os galhos. Mas que arvorezinhas mais frescas!

Há algo de engraçado nas árvores do Dr. Gibbs. A adversidade e a privação parecem, realmente, ter feito enorme bem a elas. Creio que de uma maneira que o conforto e a comodidade jamais teriam conseguido.

Todas as noites, vou ao quarto de meus filhos para ver como estão. Fico de pé, ao lado das camas, e observo seus corpinhos, a vida a subir e descer dentro deles ao ritmo de suas respirações. Sempre oro por eles. Na maioria das vezes, peço para que suas vidas sejam tranqüilas: “Senhor, poupe-os das dificuldades.” Mas, ultimamente, tenho pensado que talvez esteja na hora de mudar a minha prece.

Isso tem a ver com a inevitabilidade dos ventos frios que nos atingem lá na essência. Eu sei que, como todos nós, meus filhos também enfrentarão dificuldades. E orar para que isso não aconteça parece ingenuidade minha. Sempre haverá um vento frio soprando de algum lugar.

Por isso, vou mudar minha prece noturna. Porque a vida é dura, quer a gente queira ou não. Vou passar a orar para que as raízes de meus filhos sejam profundas, para que possam encontrar forças nas fontes ocultas do eterno Deus. É comum rezarmos para que a vida seja fácil, mas essas preces raramente são atendidas. O que devemos fazer é pedir a Deus por raízes que se estendam até a Eternidade, para que, quando as chuvas caírem e os ventos soprarem, não sejamos arrasados para longe.


Philip Gulley

(Criando raízes, ed. Sextante)

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