sábado, 30 de novembro de 2013

Águia da Noite


                            Soube do falecimento do amigo durante o cortejo fúnebre: não houve tempo hábil para avisá-lo que estaria prestes a habitar, como crê o povo vermelho americano, nas pradarias celestes junto ao Grande Espírito.                     

                            Corria o ano de 1990. A Associação dos Estudantes Universitários de Pombal (AEUP), entidade engajada nas lutas dos estudantes do ensino superior, com sede no centro da cidade, promovia mais uma semana universitária. Com uma programação bem diversificada — debates sobre vários campos do saber humano, com convidados ilustres do corpo docente universitário paraibano, e shows com bandas de outros estados, dentre outras atrações —, o evento estudantil mobilizava também outros setores da sociedade, como o poder público em suas várias instâncias.

                            Sob a égide da nova década, um jovem não universitário, idealista e cheio de vida, sonhava em ser agraciado com o título de sócio benemérito da referida entidade. De nome oficial pouco conhecido entre seus amigos, João Bosco (Teté) desempenhava a função de sonoplasta na boate da associação, habitualmente com esmero e maestria, nos fins de semana e dias de festa. Alegrava-nos com sua seleção de músicas feita com discos de vinil — numa época em que o CD ainda era novidade no mercado brasileiro de música — embalando os enamorados que ouviam e dançavam nas noites menos quentes, pois o vento que soprava do Aracati amenizava a temperatura escaldante do Sertão paraibano.

                            Sujeito de olhar terno, de estatura relevante, magricela e de bom caráter. Conheci-o no fim dos anos 1980. Mal fomos apresentados um ao outro, e já nossas conversas se desenvolveriam em torno das histórias em quadrinhos de Tex, gibi muito apreciado pelos jovens de todo o país. Ranger e chefe dos índios navajos, o herói do Velho Oeste era conhecido entre os indígenas por “Águia da Noite”. Teté,  quando a mim se dirigia, durante as minhas frequentes estadas em Pombal, passou a tratar-me carinhosamente por “Cabelos de Prata” — forma como a  nação navajo denominava o grande amigo de Tex, o também ranger Kit Carson.

                            Numa determinada noite, logo que cheguei à Praça do Centenário, o amigo observando-me de uma pequena distância encenou a emissão de sinais de fumaça, forma de comunicação entre os peles-vermelhas norte-americanos, provocando inúmeros risos entre os ali presentes. Repetiu tal encenação diversas vezes, sempre com graça e certa ingenuidade.

                            Outro sonho acalentado durante anos a fio era o de responder tudo sobre Tex no programa Sem Limites da  extinta TV Manchete. Esse programa teve convidados ilustres como o poeta e político campinense Ronaldo Cunha Lima — que respondeu com exatidão todas as perguntas formuladas sobre Augusto dos Anjos, grande bardo paraibano. Fazendo, assim, jus ao prêmio dado pela emissora carioca.

                            Dos poucos momentos de convivência desfrutados com Teté, não raras vezes tive a sensação dele “andar com os pés no chão e a cabeça nas nuvens”.     A abstração era um aspecto de sua alma que se alheava, com frequência, do mundo circunscrito a ação do tempo e do homem para, quem sabe, forjar novos objetivos de vida.

                            A Águia fez seu último voo, de duração efêmera, sobre a paisagem deslumbrante que tanto se acostumara a contemplar. Instantes depois de perscrutar  com olhar atento e constatar que não havia sinais de fumaça no ar: pousou no infinito. 

 
                                                                  Adauto Ferreira
                                                                   [João Pessoa (PB), 30/07/2012]

 

 

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