sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Uma visita a Bandeira

         Participei em Curitiba, no papel de mediador, do projeto "Nascente e Foz", dirigido pelo músico Pedro de Sá Moraes. Quatro dias dedicados a quatro grandes poetas brasileiros _ Bandeira, Cecília, Jorge de Lima e Oswald _ e sua relação com a música. A releitura que fiz de Bandeira, "interpretado" pela magnífica banda de Pedro e com leituras precisas do poeta Emilio de Mello, me fez rever o poeta que guardava na lembrança. Conservamos, em geral, uma imagem lírica e distante de Bandeira. Uma imagem difusa e ausente _ quase como que a de um anjo perdido sobre a Terra. Mas o século 20, com suas trepidações, ainda nos agita e afeta. Na verdade, Bandeira _ um homem que se apegou ferozmente ao real _ continua entre nós. 

          Manuel Bandeira foi o poeta da impureza, o poeta que gritou: "Abaixo os puristas". Lutou, todo o tempo, contra as normas implacáveis, as regras literárias e os clichês _ contra o que ele chamava de "lirismo de dicionário". Propunha, ao contrário, um "lirismo libertário", próximo das coisas da vida e das contradições do chão. No lugar da norma, que é monotonia e repetição, a riqueza do erro. Em vez do chavão, que asfixia e encarcera, a libertação do engano. Foi um homem ligado à cidade e a seus eventos banais. Permaneceu, todo o tempo, ao lado dos loucos, dos bêbedos, dos esquecidos. Não se importava com medalhas, glórias e consagrações _ o objeto de sua poesia era a vida impura, cheia de nuances e de fraquezas, de impasses e de incertezas, exatamente como ela é. A vida como um eterno rascunho que nunca chega à forma definitiva.

          Por isso, essa poesia, que carrega "a marca suja da vida", ainda hoje conserva brutal atualidade. É uma poesia que fala do presente _ não do presente do poeta, que virou passado, mas do presente do leitor, eterno presente a que estamos presos. Nada disso excluiu - ao contrário, incluiu _ a melancolia, a tristeza, a angústia, de quem passou a existência em luta contra a tuberculose e os árduos limites que lhe impunha. A vida inclui imperfeições, moléstias físicas e espirituais, dores sem cura. A vida inclui o vazio e a fragilidade. Bandeira lidou com esses problemas humanos com naturalidade. Eles não o assustavam, em vez disso o seduziam. Não são exceções, mas regras que norteiam nossa 
passagem pelo mundo. Bandeira sabia que viver é errar. É tropeçar e erguer-se, para logo tropeçar de novo. 

          Teve seus justos sonhos de serenidade _ encarnados na célebre Pasárgada _, mas eles nunca o impediram de celebrar as trepidações da existência. Nunca se esquivou do torto e do marginal, nem excluiu o deslize e a dúvida como elementos fundamentais do ser. Propunha a vida como uma aventura _ uma viagem inconsequente, da qual não temos controle e cujos movimentos não podemos dominar. Algo de que "sofremos": mas há muita beleza nesse sofrer. A vida acima de tudo: eis Bandeira. 

          É um alívio ler Bandeira em nosso despedaçado e veloz século 21. Contra a fragmentação radical, que nos dispersa e deprime, a poesia de Bandeira propõe a placidez das coisas reais _ serenidade difícil, pois a existência está sempre agitada pelo imprevisível. Contra a velocidade delirante e o frenesi contemporâneo, que nos leva a fragmentar o presente colocando em seu lugar a fantasia da felicidade virtual, ela propõe as vantagens do amor sereno e da lentidão. O poeta apreciava as longas e lentas caminhadas pelas ruas do Rio de Janeiro. Gostava do contato com a realidade vulgar, simples, livre de artifícios e afetações. Soube encontrar a força da vida exatamente ali onde ela é mais desprotegida e fraca. Tirou força da fraqueza _ foi um poeta que não temeu o humano e, por isso, entre tantos gênios do século 20 brasileiro, foi talvez o mais humano dos poetas. 

          Por isso, hoje, a leitura de Manuel Bandeira nos ajuda a viver. Primeiro _ em um mundo que parece reduzido a um abalo sem fim _ ela nos dá um colo e um chão. Depois, nos ensina a amar espontaneamente, sem as maquinações da performance, sem as tramas da vantagens e das linhagens. É uma poesia que nos deixa serenos porque nos ajuda a encarar a vida serenamente. Sem a procura de êxtases artificiais. Sem o desejo de crescer além de nossas próprias pernas. Sem o auxílio mentiroso das máscaras e das etiquetas. Simplesmente viver, tratando das coisas com brandura e confiança. Simplesmente ser o que se é. Uma poesia que, em um mundo que exalta a grandeza e o sucesso a qualquer preço, nos ensina a não temer as miudezas e as injustiças, reaproximando-nos da delicada embriaguez do chão.
 
José Castello
 

Nenhum comentário: