segunda-feira, 26 de junho de 2017


"É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço".

 Graciliano Ramos

Versículos do dia

Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre, Daniel 2:44

Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis.Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. 2 Pedro 1:10,11

Moro às vezes é muito bonzinho

Gerson de Mello Almada, ex-vice presidente da Engevix, recorreu ao TRF-4, para diminuir a pena imposta por Sérgio Moro.
O tribunal revisou, aumentando a pena -- por corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa -- de 19 para 34 anos de prisão.
Aos olhos dos desembargadores de Porto Alegre, Moro às vezes é muito bonzinho.
 
 O Antagonista

As 7 Coisas MAIS Absurdas Que Passageiros Tentaram Levar Em Aviões

Quem viajou de avião já sabe que antes de embarcar tem toda aquela burocracia de passar as malas por raio-x, andar por detectores de metais e se preocupar com o conteúdo da mala. Ninguém quer ser parado no aeroporto por estar carregando algo que não deveria e ter que passar por apuros na hora de viajar.
Apesar disso, muita gente tenta driblar os equipamentos e as autoridades. Muitas vezes, as tentativas são bizarras para transportar os mais diversos tipos de bagagem ilegal. Drogas, animais e até mesmo pessoas já foram escondidas por passageiros.
Seja por inocência ou por intenções criminosas, as pessoas não tem vergonha na hora de tentar carregar aquela bagagem diferenciada. Confira algumas das coisas mais bizarras que passageiros já tentaram levar para dentro dos aviões.
Loris
Durante uma viagem de Dubai para Nova Déli, na Índia, um homem tentou entrar no avião com uma surpresinha dentro das calças. Escondido dentro da cueca do passageiro, estava um pequeno Lóris – um primata ameaçado de extinção com cerca de 17 centímetros.
Uma tartaruga disfarçada de hambúrguer
Ao passar pelo raio-x de um aeroporto na China, um homem foi parado após uma imagem suspeita. Dentro de uma caixinha de um hambúrguer do KFC, apareciam pequenas pernas no lugar onde deveria estar o sanduíche. O homem negou que estivesse carregando algo além de comida, mas a polícia encontrou uma tartaruga no lugar da comida. Segundo o chinês, ele apenas queria viajar na companhia do animal de estimação. A tartaruga foi impedida de embarcar com o dono e foi deixada com um amigo do rapaz.
Uma faca disfarçada de prendedor de cabelo
Também na China, após passar por um detector de metais antes de entrar na sala de embarque de aeroporto, uma mulher foi parada. Quando os fiscais checaram seu estranho prendedor de cabelo, encontraram uma faca. Segundo a mulher, ela estava embarcando com muitas frutas compradas na viagem e achou que poderia usar a faca para cortá-las ali mesmo.
Uma garrafa de conhaque
A lei chinesa não permite que passageiros carreguem garrafas com mais de 100ml de líquido nos aviões. Para o azar da chinesa Zhou, a garrafa de conhaque que ela queria carregar no avião continha 700ml da bebida. Para evitar o desperdício do dinheiro gasto com a garrafa, a chinesa decidiu beber tudo de uma vez, ali mesmo no aeroporto. Após ficar bêbada, rolar no chão e gritar por todos os lados, foi impedida de voar por estar muito embriagada.
Um monte de girinos
Na Coreia do Sul, uma mulher que tentava embarcar com uma garrafa d’água foi impedida. Os fiscais do aeroporto disseram que ela deveria beber o líquido ou jogar a garrafa fora. A mulher decidiu tomar o conteúdo da garrafa, mas não engoliu, o que instigou os oficiais. Eles ordenaram que ela cuspisse a bebida num balde e ficaram chocados ao perceber que havia uma porção de girinos. A coreana explicou que ganhou os animais de presente e não queria jogá-los fora, o que os fiscais fizeram sem remorso.
Um gesso na perna feito de cocaína
Para tentar sair do Chile com 5 kg de cocaína, um homem tentou uma ideia das mais inusitadas. Fingindo uma lesão na perna, toda engessada, o homem escondida porções da droga dentro do gesso e numa caixa de cerveja que levava no embarque. Mas o que surpreendeu a polícia foi que o suposto gesso da perna do rapaz era feito inteiro de cocaína.
Uma criança de 8 anos
Uma jovem espanhola, de 19 anos, tentou entrar no país carregando uma criança dentro da mala. Após mostrar um comportamento estranho, foi abordada pela polícia, que suspeitava que ela traficava drogas. A criança marroquina era carregada dentro da mala para ser levada para a Espanha de forma ilegal. Além da jovem que levava o menino, os pais da criança também foram presos.
É até difícil de acreditar que as pessoas tentam levar tanta coisa estranha num avião. É realmente bizarro conhecer as motivações mais malucas para as bagagens mais estranhas.


 Curioso

domingo, 25 de junho de 2017

Agnaldo Rayol - New York New York


Alquimia

Naquela mistura
fumegante e colorida
que a pá
não pára de agitar
vê-se
o infinito olhar de um morimbundo
o primeiro olhar de um primeiro amor
um trem a passar numa gare deserta
uma estrela remota um pincenez perdido
o sexo do outro sexo
a mágica de um santo carregando sua própria cabeça
e de tudo
finalmente
evola-se o poema daquele dia
- que fala em coisa muito diferente... 


Mário Quintana

Charge


Cenário

Passei por essas plácidas colinas
e vi das nuvens, silencioso, o gado
pascer nas solidões esmeraldinas.


Largos rios de corpo sossegado
dormiam sobre a tarde, imensamente,
— e eram sonhos sem fim, de cada lado.


Entre nuvens, colinas e torrente,
uma angústia de amor estremecia
a deserta amplidão na minha frente.


Que vento, que cavalo, que bravia
saudade me arrastava a esse deserto,
me obrigava a adorar o que sofria?


Passei por entre as grotas negras, perto
dos arroios fanados, do cascalho
cujo ouro já foi todo descoberto.


As mesmas salas deram-me agasalho
onde a face brilhou de homens antigos,
iluminada por aflito orvalho.


De coração votado a iguais perigos
vivendo as mesmas dores e esperanças,
a voz ouvi de amigos e inimigos


Vencendo o tempo, fértil em mudanças,
conversei com doçura as mesmas fontes,
e vi serem comuns nossas lembranças.


Da brenha tenebrosa aos curvos montes,
do quebrado almocafre aos anjos de ouro
que o céu sustêm nos longos horizontes,


tudo me fala e entende do tesouro
arrancado a estas Minas enganosas,
com sangue sobre a espada, a cruz e o louro.


Tudo me fala e entendo: escuto as rosas
e os girassóis destes jardins, que um dia
foram terras e areias dolorosas,


por onde o passo da ambição rugia;
por onde se arrastava, esquartejado,
o mártir sem direito de agonia.


Escuto os alicerces que o passado
tingiu de incêndio: a voz dessas ruínas
de muros de ouro em fogo evaporado.


Altas capelas cantam-me divinas
fábulas. Torres, santos e cruzeiros
apontam-me altitudes e neblinas.


Ó pontes sobre os córregos! ó vasta
desolação de ermas, estéreis serras
que o sol frequenta e a ventania gasta!


Armado pó que finge eternidade,
lavra imagens de santos e profetas
cuja voz silenciosa nos persuade.


E recompunha as coisas incompletas:
figuras inocentes, vis, atrozes,
vigários, coronéis, ministros, poetas.


Retrocedem os tempos tão velozes
que ultramarinos árcades pastores
falam de Ninfas e Metamorfoses.


E percebo os suspiros dos amores
quando por esses prados florescentes
se ergueram duros punhos agressores.


Aqui tiniram ferros de correntes;
pisaram por ali tristes cavalos.
E enamorados olhos refulgentes


— parado o coração por escutá-los
prantearam nesse pânico de auroras
densas de brumas e gementes galos.


Isabéis, Dorotéias, Heliodoras,
ao longo desses vales, desses rios,
viram as suas mais douradas horas


em vasto furacão de desvarios
vacilar como em caules de altas velas
cálida luz de trêmulos pavios.


Minha sorte se inclina junto àquelas
vagas sombras da triste madrugada,
fluidos perfis de donas e donzelas.


Tudo em redor é tanta coisa e é nada:
Nise, Anarda, Marília… — quem procuro?
Quem responde a essa póstuma chamada?


Que mensageiro chega, humilde e obscuro?
Que cartas se abrem? Quem reza ou pragueja?
Quem foge? Entre que sombras me aventuro?


Quem soube cada santo em cada igreja?
A memória é também pálida e morta
sobre a qual nosso amor saudoso adeja.


O passado não abre a sua porta
e não pode entender a nossa pena.
Mas, nos campos sem fim que o sonho corta,


vejo uma forma no ar subir serena:
vaga forma, do tempo desprendida.
É a mão do Alferes, que de longe acena.


Eloquência da simples despedida:
“Adeus! que trabalhar vou para todos!…”
(Esse adeus estremece a minha vida.)


Cecília Meireles 

Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

Florbela Espanca

Idealização da Humanidade

Futura Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
— Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!–
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam!No húmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais! 
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão... 
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação,


Augusto dos Anjos

A Barca e a Carroça

Por causa do meu trabalho recente com teatro, tenho voltado a encontrar algumas dessas imagens que nunca nos largam. Imagens associadas a um gênero narrativo. Elas são como um pequeno objeto que a gente toma nas mãos, fica mudando de posição, e cada ângulo nos revela uma informação nova.

A imagem do momento é a da Barca, porque a companhia teatral com quem tenho trabalhado é a Barca dos Corações Partidos, do Rio.

Bastaria esse nome para ganhar meu voto, porque isso por um lado me lembrava o “Mote do Navio” de Pedro Osmar (“Lá vem a barca / trazendo o  povo, / pra liberdade / que se conquista”) e por outro evocava o Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta.

Por falar em Pimenta, o “Mote do Navio” de Pedro, uma música que é a cara do seu grupo em João Pessoa, o Jaguaribe Carne, foi gravado por Lenine no CD que fez em 1983 com Lula Queiroga, o Baque Solto (PolyGram).

“Lá Vem a Barca” era também o nome do show que eu, Fuba e Tadeu Mathias fazíamos à meia-noite no Teatro Lira Paulistana, em São Paulo, em 1980. Uma temporada que me abriu os olhos musicalmente, levando-me a conhecer, na amizade com o pessoal do teatro (alô Gordo, Fernandão, Riba, Chico Pardal, Plínio, Inimá) a música do Rumo, de Itamar Assumpção, do Premê, de Arrigo Barnabé, do Língua de Trapo.

A canção de Pedro Osmar servia como anúncio de uma Nau Catarineta mística que nos traz a liberdade. Uma espécie de Sebastianismo marítimo, ao qual nem mesmo Bob Dylan ficou imune; basta lembrar “When the Ship Comes In” (1963).

Esse arquétipo da Barca significa algo que está vindo e que vai trazer para nós um mundo melhor. Ou, dependendo do poeta, nos levar para um mundo que seja melhor do que esta coisa-sem-jeito em que vivemos. Pode ser a Arca de Noé que nos salva de um cataclismo, e pode ser o navio que depois de longo sofrimento nos resgata na ilha deserta em que nos aguentamos.

A Barca, “enquanto” elemento mítico narrativo, pertence a uma extensa família de espaços fechados que conduzem no seu interior uma memória cultural inteira.

Roland Barthes, em Mitologias (1957), citava como exemplo o “Nautilus” de Julio Verne em Vinte Mil Léguas Submarinas (1870). Um submarino cheio de obras de arte, instrumentos científicos, biblioteca de milhares de livros, tudo isso num tubo de metal e vidro viajando pelo fundo do mar. Um conceito terminal de condomínio fechado. Com o agravante de ser também um vaso de guerra.

Foi nessa altura que me ocorreu que a Barca, transposta para a terra, vira a Carroça. Pode ser o carro-de-bois que geme com seus viajantes em qualquer livro regionalista, e pode ser a carroça de um circo ambulante.

Pode ser a carruagem que cruza com ousadia o território infestado de índios em No Tempo das Diligências de John Ford (1939) e pode ser a trupe ambulante da commedia dell’arte do filme As Aventuras do Capitão Tornado (1990) de Ettore Scola.

Tudo isto faz lembrar também a “Barraca” com que o poeta e dramaturgo Garcia Lorca percorria a Espanha montando autos em praça pública, e que tanto influenciou o jovem Ariano, Hermilo Borba Filho e seus companheiros no Teatro do Estudante de Pernambuco, nos anos 1940, quando ele escreveu Uma Mulher Vestida de Sol (1947).

Remete também à trupe teatral de Monsieur Binet em que André Luís Moreau descobre o teatro e se transforma em Scaramouche, no romance de Rafael Sabatini (1921). Remete ao Circo ambulante que Dom Pedro Dinis Quaderna planeja botar na estrada no final do Romance da Pedra do Reino.

A Barca, que é ao mesmo tempo uma Carroça, expressa para alguns a volúpia da vida nômade, da vida cigana. Bruce Chatwin tinha uma teoria de que o sedentarismo e a civilização tinham estragado a aventura humana, o “sonho de Adão” como disse Gilberto Gil. Nascemos para ser nômades, pastores, viajantes; nascemos para ser leves e aventureiros.

Como disse Deus a Tonheta em Brincante (1992): “Nessa carroça seguirás pelo mundo, depois de nela colocar tudo que tens; e durante o resto da tua vida não poderás possuir nada que nela não possa caber”.

É uma prescrição de desapego. De que adianta sair em aventura pelo mundo levando a banheira de água quente, a poltrona de leitura, dez baús de roupa, todos os automóveis da família? Não, amigo. Terás direito a uma carroça, não mais.

Quando um grupo de artistas (circo, música, etc.) sai de mundo afora numa carroça, mais do que o espaço físico importa a mescla social e psicológica de tantos tipos humanos em interação permanente ao longo da rotina da estrada. E das surpresas da estrada.

Nesse sentido, esses filmes de super-heróis coletivos, como X-Men, lembram os filmes sobre circo. Ali, cada personagem se distingue e se afirma pela façanha que é capaz de realizar, mas, tirando esse aspecto excepcional, são pessoas tão complicadas e tão pouco heróicas quanto qualquer um de nós.

Em todo coletivo humano, existe um fator de nivelamento (coisas que todos sabem fazer, com a mesma competência, ao mesmo tempo, solidariamente) e um fator de individuação (coisas que somente um sabe fazer de forma excepcional). As posições dos jogadores, no futebol, exprimem um pouco disso.

Dizem que a história folclórica da “Branca de Neve e os Sete Anões” referia-se aos anões sempre coletivamente: eles não tinham nome, nem perfil próprio. Foi Walt Disney (ou alguém a quem ele pagava um ótimo salário) quem teve a idéia de personalizar os anões, transformando-os em Mestre, Zangado, Feliz, Soneca, Atchim, Dengoso e Dunga.

Todo agrupamento que viaja numa Barca ou numa Carroça precisa disso. O coletivismo solidário e a individualidade marcante.

Esta é uma das coisas que precisamos não esquecer, nos tempos que virão.
 
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

sábado, 24 de junho de 2017

Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
É maior do que o mundo.

Manoel de Barros

Poema Negro


Ruína

Sem encontrar-se.
Viajante pelo seu próprio torso branco.
Assim ia o ar.

Logo se viu que a lua
era uma caveira de cavalo
e o ar uma maçã escura.

Detrás da janela,
com látegos e luzes se sentia
a luta da areia contra a água.

Eu vi chegarem as ervas
e lhes lancei um cordeiro que balia
sob seus dentezinhos e lancetas.

Voava dentro de uma gota
a casca de pluma e celulóide
da primeira pomba.

As nuvens, em manada,
ficaram adormecidas contemplando
o duelo das rochas contra a aurora.

Vêm as ervas, filho;
já soam suas espadas de saliva
pelo céu vazio.

Minha mão, amor. As ervas!
Pelos cristais partidos da morada
o sangue desatou suas cabeleiras.

Tu somente e eu ficamos;
prepara teu esqueleto para o ar.
Eu só e tu ficamos.

Prepara teu esqueleto;
é preciso ir buscar depressa, amor, depressa,
nosso perfil sem sonho.

Federico García Lorca, in 'Poeta em Nova Iorque'

É dia de São João, uma das mais tradicionais festas do Nordeste brasileiro

Fotografia

A lua, em minguante, no céu de Genebra, Suíça (Foto: Valentin Flauraud / EPA / EFE)

Meu filho, você não merece nada

A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada.
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.
Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.
Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?
Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.
Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.
Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.
A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.
Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.
Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.
Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.
Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.
O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.
Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.
Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.
Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

Eliane Brum
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).

Os Romances Picarescos da História

Tem uma espécie de Herói que vem reaparecendo aqui e ali na literatura e no cinema. Eu os chamaria “os pícaros da História” embora essa definição não cubra tudo que eles representam. 
Chamo-os de pícaros porque são personagens menores, de baixa extração social, sem nenhum heroísmo, sem nenhuma grandiosidade. São apenas personagens espertos ou esforçados que vivem numa época (ou numa condição social) perigosa, mas que sobrevivem. Sujeitos comuns que estão “se virando” para escapar, numa época de grandes convulsões sociais.

Uma característica das histórias a respeito deles é o fato de que a narrativa conta a vida deles, e as “grandes convulsões sociais” ficam meio que em segundo plano. O mundo está a ponto de se acabar, mas tudo que a narrativa se preocupa é saber o que vai ser do Fulaninho que é o pícaro protagonista.

Vejam o caso de Forrest Gump, por exemplo. Ele passa incólume e meio abestado por dentro de conflagrações sociais como a Marcha Pelos Direitos Civis, a Guerra do Vietnam, etc.  Mal percebe o que está acontecendo. Nós nos comovemos com ele e com o seu abestalhamento – que é próximo o bastante do nosso para que possamos nos identificar, e distante o suficiente para que possamos ficar na confortável posição de “ter peninha do rapaz retardado”.

E os autores (o filme se baseia num romance, que não cheguei a ler) insistem o tempo inteiro em colocar Forrest na fímbria dos grandes acontecimentos, usando para isso de trucagens eletrônicas, etc., manipulando imagens para inseri-lo na História com H maiúsculo. O herói pícaro contracena digitalmente com Martin Luther King, Richard Nixon, John Lennon, etc.

Forrest Gump me lembrou muito, quando o vi, do filme Zelig de Woody Allen. Mais uma vez temos um protagonista que é o zé-ninguém, um zero-da-silva, sem a menor importância, mas que sempre dá um jeito de estar no lugar certo na hora certa, ou seja, de aparecer de algum modo na vitrine da História. 

E mais uma vez temos as trucagens visuais inserindo o personagens em cenas que são familiares a todo mundo. (Vale lembrar que Zelig é de 1983, e Forrest Gump veio depois, em 1994, baseado num livro de 1986).

Penso nesses dois heróis enquanto leio Baudolino (2000) de Umberto Eco, um romance ambientado no século 12. Baudolino é um herói picaresco típico, por sua origem (filho de camponeses ignorantes) mas que graças a algumas coincidências bem cordelescas acaba encontrando e caindo nas graças do Imperador Frederico Barbarossa, e se torna seu protegido.

Daí em diante Baudolino, feito um Zelig ou um Forrest Gump, começa a participar de todos os eventos históricos importantes do seu tempo (final do século 12).

Quando Umberto Eco publicou seu primeiro romance, O Nome da Rosa, alguém perguntou numa entrevista por que ele escolhera ambientar seu primeiro livro na Idade Média. Ele disse: “Porque conheço a Idade Média com mais detalhes e mais profundidade do que conheço a época contemporânea”.

Para Eco, a vantagem de livros assim é aquela em que a gente diz que “a pesquisa já foi feita”, ou seja: passei a vida inteira lendo a respeito disso, não preciso sentar para aprender somente porque vou usar num livro.

A espantosa quantidade de informações no romance Baudolino deve ter sido assimilada por Eco ao longo de muitas décadas de leitura, daí a facilidade com que ele sai costurando os episódios históricos da época com a linha ficcional das peregrinações de Baudolino.

Um dos episódios mais engraçados é o modo como a cidade de Alessandria (onde Eco nasceu) é fundada e acaba resistindo às tentativas do Imperador Frederico para destruí-la. Claro que no livro a cidade se salva graças a uma artimanha, uma lenda local, que no livro ele atribui a Baudolino.

A famosa carta do Prestes João, o mítico rei cristão de um reino perdido no Oriente, é também atribuída a Baudolino e seus amigos de farra, uma porção de “goliardos” (estudantes poetas cachaceiros) de Paris. (Um dos quais, aliás, na vida real, é um dos autores dos versos da “Carmina Burana”).

Há um episódio em que Baudolino se apaixona pela imperatriz e escreve para ela, sem assinar, uma porção de cartas românticas e eróticas; escreve também as respostas que ela “poderia” ter lhe dado. Ainda não localizei esse dado, mas imagino que seja algum conjunto de cartas medievais de autor não-sabido, e que Eco, obedecendo à lei estrutural do Romance Picaresco da História, atribui ao seu aventureiro.

Mesmo que alguém não esteja disposto a encarar o romance (estou lendo na edição da BestBolso, que tem 600 páginas), vale a pena ler o capítulo 1, “Baudolino começa a escrever”. O texto reproduz as primeiras tentativas do herói de contar sua própria história, numa algaravia que mistura latim e outras línguas, cheia de erros cômicos de ortografia, palavrões, etc.  Algo certamente difícil e divertido de traduzir (a tradução é de Marco Lucchesi).

Nesse capítulo alfabetizatório, Baudolino afirma estar usando um palimpsesto, ou seja, uma superfície onde já havia algo escrito e que o usuário raspa, deixando novamente em branco, para escrever em cima. A raspagem de Baudolino é deficiente, de modo que algumas frases em latim do texto antigo sobrevivem no meio das coisas que ele está escrevendo.

É o mesmo efeito que os diretores de Forrest Gump e Zelig obtêm misturando suas imagens ficcionais a imagens de telejornais da época – uma maneira direta de misturar o Romance Picaresco com os fatos da História.

E que Ariano Suassuna usou fartamente no seu ciclo de romances da Pedra do Reino, inserindo o impagável Dom Pedro Dinis Quaderna e sua família em episódios políticos e literários da história do Brasil e da Paraíba.

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

A diferença que a visão faz

Em 1879, James Ritty, dono de um bar, re­cebeu a patente de uma caixa registradora mecânica que havia projetado para impedir que seus funcionários roubassem dinhei­ro da gaveta.

Ritty abriu uma empresa para deter a patente e co­mercializar suas caixas registradoras. Infelizmente, conseguiu vender apenas algumas centenas de unidades. 

Quando outro co­merciante, John Patterson, ofereceu 6.500 dólares pela empresa pela invenção patenteada, James ficou feliz em vendê-las. Ritty e todos os homens de negócio acharam que Patterson era um idiota visionário. Para eles, era inimaginável pa­gar tanto dinheiro por uma invenção que tinha vendido tão pou­co nos cinco anos em que estivera no mercado. 

Porém, Patterson tinha algo que Ritty e os demais negociantes não possuíam: visão. Até sua morte, Patterson vendeu mais de 22 milhões de caixas registradoras, e sua companhia se tornou uma das mais influentes empresas de vendas e marketing que já existiu.

Prof. Menegatti 

sexta-feira, 23 de junho de 2017


Conto de fadas

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de ouro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: "Era uma vez..."



Florbela Espanca






Frase

A verdadeira universalidade respeita as singularidades locais. Todos entram com sua parte, compondo a vasta sinfonia da cultura. Ela é feita de contrastes, que não são contrários, mas complementares. Do jeito como está proposta, a globalização é apenas a prevalência de uma cultura única, a norte-americana, sobre todas as outras.

Ariano Suassuna,

Lições de abismo

 (ilustração para Viagem ao Centro da Terra)

Há um episódio na Viagem ao Centro da Terra de Julio Verne que me pareceu enigmático quando o li pela primeira vez aos 12 anos. 
Neste livro, o Prof. Lidenbrock e seu sobrinho Axel encontram um velho pergaminho onde está indicada uma passagem para o centro da Terra, através de um vulcão extinto na Islândia. Os dois empreendem a viagem, no capítulo 8 passam por Copenhague, e ao passear pela cidade o Professor percebe o campanário da igreja de Vor-Frelsers-Kirk. Resolvem subir até o alto. 
Primeiro sobem uma escada em caracol interna, depois passam para outra escada análoga, que sobe em espiral pelo lado de fora da torre. (Há um belo simbolismo oculto nesta espiral que parte do interior para o exterior, rumo ao alto.)
Chegando lá em cima, Axel está apavorado, tomado pela sensação de vertigem: 
“Abri os olhos. Entrevi por entre o fumo das chaminés as casas deprimidas, como se tivessem ficado esmagadas numa queda. Por cima de nós perpassavam nuvens desgrenhadas, e, pelo efeito de ilusão óptica, pareciam-me imóveis, enquanto o campanário e nós corríamos com vertiginosa rapidez.”
Verne nunca foi um bom prosador ou estilista, mas tinha, como poucos escritores, a intuição da imagem forte, inesperada, misteriosamente inesquecível. Esta torre imóvel que parece ser arrebatada a toda velocidade através do espaço é uma das imagens mais fortes do livro; e ele a complementa fazendo o Prof. Lidenbrock dizer a Axel: 
“Olha, mas olha bem! É necessário tomar lições de abismo!”.
Sempre achei fascinante que um indivíduo que se prepara para mergulhar nas entranhas da terra achasse necessário, como estágio preparatório, subir ao cimo de uma torre altíssima. Há nisso um simbolismo psicológico (subir às alturas é um modo de mergulhar nas profundezas do Inconsciente), mas há também um dos traços que fizeram de Julio Verne o autor de obras fundadoras, obras que alteraram nossa relação física e mental com o mundo. 
Num artigo de 1906, Anatole Le Braz dizia: 
“Verne nos trouxe a poesia do espaço, o frêmito do infinito. Comparemos o mundo sem limites a que ele nos conduz com o mundo que nos é pintado pelos romances habituais. No romance moderno predomina o ar da sala-de-visitas, do quarto, da alcova; é um ar abafado. No romance de Verne, é o ar livre, o ar virgem, o ar que nunca foi respirado. Quando o lemos, sentimos passar através dos nossos pulmões grandes sopros de ar que vêm das profundezas do ilimitado.”
Grande parte da rejeição que algumas pessoas têm à ficção científica deve-se a isto. Há pessoas (e nada tenho contra elas, entendo perfeitamente) que só se sentem à vontade no interior de um ambiente que conhecem, que controlam. Essas pessoas não têm o senso da aventura, nem mesmo sentadas em sua poltrona de leitura. 
A ficção científica nos arrebata para outros espaços, outros tempos, e essas pessoas sofrem de vertigem. Uma vertigem conceitual, que as faz recuar diante das lições de abismo.

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo 

Data e dedicatória

Teus poemas, não os dates nunca... Um poema
Não pertence ao Tempo... Em seu país estranho
Se existe hora, é sempre a hora extrema
Quando o Anjo Azrael nos estende ao sedento
Lábio o cálice inextinguível...
O que tu fazes hoje é o mesmo poema
Que fizeste em menino,
É o mesmo que,
Depois que tu te fores,
Alguém lerá baixinho e comovidamente,
A vivê-lo de novo...
A esse alguém,
Que talvez nem tenha ainda nascido,
Dedica, pois, teus poemas,
Não os date, porém:
As almas não entendem disso... 


Mário Quintana 

Lanciano, a missa que não acabou

O Milagre Eucarístico de Lanciano ainda hoje desafia a ciência e chama a atenção dos fiéis católicos no mundo inteiro.

Era uma manhã de domingo comum, na cidade italiana de Lanciano, no mosteiro de São Legoziano, onde viviam os Monges de São Basílio. O mais incrédulo deles proferia as palavras da Oração Eucarística, quando, de repente, ocorreu o inesperado. Os olhos assustados do religioso denunciavam o evento. Deus havia condecorado a sua suspeita quanto à transubstanciação com o mais prodigioso dos milagres eucarísticos de que se ouviu falar. 

A hóstia convertera-se em Carne viva e o vinho em Sangue Vivo. O pequeno monge que outrora duvidara da presença real de Cristo na Eucaristia agora era obrigado a reconhecer sua tolice, pedindo perdão a Deus - e à comunidade presente - por sua falta de fé: "Ó bem-aventuradas testemunhas diante de quem, para confundir a minha incredulidade, o Santo Deus quis desvendar-se neste Santíssimo Sacramento e tornar-se visível aos vossos olhos. Vinde, irmãos, e admirai o nosso Deus que se aproximou de nós. Eis aqui a Carne e o Sangue do nosso Cristo muito amado!" [1]

Comoção geral. A pequena assembleia reunida se lançou sobre o altar, chorando e clamando a misericórdia de Deus. Havia nascido um novo São Tomé. O monge ganhara a fama do cético apóstolo de Jesus e Lanciano, as multidões que se dirigiram à cidade, ano após ano, em longas peregrinações. 

A princípio, os fiéis guardaram as relíquias num tabernáculo de marfim, mas, em 1713, foram transferidas para uma custódia de prata e um cálice de cristal, onde se encontram até hoje, na Igreja de São Francisco. Enquanto o Sangue se dividia em cinco fragmentos, coagulados em diferentes dimensões, a Hóstia-Carne aparentava um tecido fibroso, de coloração escura, e rósea quando iluminado pelo lado oposto. 

A Igreja reconheceu o milagre de Lanciano em 1574. Mas foi somente em novembro de 1970 que os Frades Menores Conventuais, os responsáveis pela guarda das relíquias, tiveram a autorização para submetê-las ao exame de dois médicos. Concluída a pesquisa, em Arezzo, os renomados doutores Linoli e Bertelli publicaram um relatório, dizendo: 

"A Carne é verdadeira carne, o Sangue é verdadeiro sangue. A Carne é do tecido muscular do coração (miocárdio, endocárdio e nervo vago). A Carne e o Sangue são do mesmo tipo sangüíneo (AB) e pertencem à espécie humana. No sangue foram encontrados, além das proteínas normais, os seguintes materiais: cloretos, fósforos, magnésio, potássio, sódio e cálcio. A conservação da Carne e do Sangue, deixados em estado natural por 12 séculos e expostos à ação de agentes atmosféricos e biológicos, permanece um fenômeno extraordinário." 

Os resultados foram tão impactantes que antes mesmo do fim da análise, os médicos enviaram um telegrama aos Frades, confessando-lhes o espanto: "E o Verbo se fez Carne!". É assim que o Milagre de Lanciano, desafiando a ação do tempo e toda a lógica da ciência humana, se apresenta aos nossos olhos como a prova mais viva e palpável de que "Comei e bebei todos vós, isto é o meu Corpo que é dado por vós." 

Em 1975, durante o Ano Santo, o Cardeal Karol Wotyla, futuro João Paulo II, fez uma peregrinação privada ao Santuário do Milagre Eucarístico em Lanciano. Recordando a ocasião numa visita Ad Limina dos bispos italianos dessa região, o Santo Padre insistiu para que a Eucaristia não fosse adorada “só na igreja do milagre, mas em todas as igrejas da vossa bonita terra." [2]

Curiosamente, o tipo sanguíneo das relíquias é o mesmo encontrado no Santo Sudário. 

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Versiculos do dia

Se tu, Senhor, observares as iniqüidades, Senhor, quem subsistirá? Salmos 130:3

Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça, Efésios 1:7