domingo, 7 de janeiro de 2018

Resoluções para 2018

 
(ilustração: James Turrell)

Fazer como o doidim de Taperoá, que toda vez que lhe mostravam duas moedas escolhia sempre a menor, porque no dia em que escolhesse a maior a brincadeira acabava.
Fazer como Jorge Luis Borges, que considerava Waterloo uma vitória.
Fazer como Isadora Duncan, que disse: “Está soprando um vento frio, acho que vou de cachecol.”
Fazer como a cartuxa de Parma e a toutinegra do moinho, que viveram só para inspirar um título.
Fazer como Juquinha, que quando já estava na Faculdade reencontrou a professora e a levou para tomar umas cervejas.
Fazer como C. G. Jung, que entendeu que a blasfêmia não é para insultar quem ouve, mas para libertar quem diz.
Fazer como aquela moça da Bíblia que se deixou levar à tenda do general invasor e saiu de lá com a cabeça dele.
Fazer como os Harlem Globetrotters, que jogavam tão bem que não precisavam ganhar.
Fazer como a trapezista que explicou: “o segredo é não acreditar que tem a rede.”
Fazer como Raymond Chandler, que enxugava uma garrafa de uísque antes do almoço, e com isso economizava o almoço.
Fazer como a Princesa Isabel, que resssignificou o conceito de interinidade.
Fazer como Neymar, que quando soube do 7x1 na véspera pediu para ficar de fora, e aí inventaram uma "fratura da coluna vertebral".
Fazer como Raskolnikóv, que viu a merda que tinha feito e não sossegou enquanto a polícia não somou dois mais dois.
Fazer como Snoopy, que tinha plena consciência da importância da frase inicial de um processo criativo.
Fazer como aquela moça da NASA que conseguia dar uma mamadeira enquanto calculava uma órbita.
Fazer como o anarquista espanhol que entrou na cabine eleitoral, votou, depois puxou o detonador, e explodiu o próprio voto.
Fazer como Emily Dickinson, que ela mesma escrevia, ela mesma lia e ela mesma criticava.
Fazer como Lutero, que descobriu que para enfrentar o diabo não servia água benta, era preciso um tinteiro.
Fazer como o co-piloto do Boeing, que quando o piloto disse: “Fulano, me acode, estou morrendo, botaram alguma coisa no meu suco”, ele disse: “Fui eu.”
Fazer como Michelangelo que estava pintando, foi interrompido pelo Papa, e jogou uma caixa de ferramentas na cabeça do intruso.
Fazer como a dona da pensão que botou em cima da mesa uma terrina de arroz, uma de carne moída, e disse: “Quem não gostar vá almoçar na casa da puta que o pariu.”
Fazer como Sísifo, que considerava como seu objetivo fazer a pedra rolar de cima do morro até o vale.
Fazer como a roqueira punk que conclamou a multidão: “Bora, sobe todo mundo no palco, bora pular até essa porra vir abaixo”, e assim se fez.
Fazer como L. Ron Hubbard, que mandou a ficção científica às favas, inventou logo uma religião e ficou milionário.
Fazer como Lampião, que olhou Maria Bonita de cima a baixo e disse: “Venha, que eu vou lhe fazer a mulher mais feliz do mundo Já sabe como é o sistema. Se tiver coragem, pode vir.”
Fazer como D. Elaine, minha professora de Geografia, que no dia da prova anunciou para a classe: “Quesito único: Fale sobre agricultura”.
Fazer como Augusto dos Anjos, que publicou um livro intitulado “Eu” onde só existe meia dúzia de cisquinhos autobiográficos.
Fazer como Dolores Duran, que escrevia em qualquer papel, em qualquer hora, em qualquer lugar.
Fazer como Augusto Matraga, que matou um adversário e depois protegeu o corpo dele contra a turba enfurecida.
Fazer como Ana Maria, secretária da FURNe, que um dia me falou: “A vida passa e nós vamos ficar, aquecidos pelo calor imundo das árvores, sangrentas e miseráveis”.
Fazer como Groucho Marx, que esvaziava um revólver com uma piada.
Fazer como Lillian Hellman, que conseguiu passar quinze anos sem perguntar ao marido por que ele tinha deixado de escrever.
Fazer como Zabé, que morava na loca e vivia do vento.
 
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

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